A tradição da contranarrativa e o nacionalismo literário angolano
DOI:
https://doi.org/10.47250/forident.v41n1.p55-76Palavras-chave:
Romance Angolano. Contranarrativa. Encruzilhada. Historiografia Literária.Resumo
Este artigo problematiza a perspectiva historiográfica tradicional que Institui o nacionalismo literário como critério exclusivo para compreender a historicidade do romance angolano. Ao enquadrar a produção de 1880 a 1940 como “protonacionalista” (uma consciência nativista lida como fase preparatória para um projeto político de Independência) , a transferência dessa régua sociológica para a literatura esvazia a agência estética das obras, julgando-as pelo que “ainda não eram”. Contrapondo-se a leituras teleológicas e fundamentado na “economia da feitiçaria” (Mbembe, 2001) e no “tempo espiralar” (Martins, 2023), o texto delineia outro caminho Interpretativo: a existência de uma “tradição da contranarrativa” no período entre 1888 e 1974. A Investigação de estratégias estético-políticas em obras de Pedro Félix Machado, Alfredo Troni, António de Assis Júnior, Fernando Castro Soromenho, Óscar Ribas e Luandino Vieira revela autores que atuaram, na encruzilhada do texto, como artífices de uma sabotagem epistêmica. Tais mecanismos de escrita evidenciam que o romance angolano não apenas narra a descolonização, mas a encarna. Conclui-se, assim, que a “encruzilhada” (Martins, 2023; Santos, 2025) constitui a categoria analítica central para apreender essa densidade histórica, fazendo da narrativa um território contínuo de reinvenção e resistência.
Submissão: 17 mar. 2026 ⊶ Aceite: 24 abr. 2026
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