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<document>
  <page number="1">
    <line>1 </line>
    <line>Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24792, 2026 </line>
    <line>DOI:10.21669/tomo.v45.24792  </line>
    <line>Dossiê: Sociologia econômica no Brasil:  </line>
    <line>reconfigurações dos mercados e disputas de poder  </line>
    <line>E-ISSN:2318-9010 / ISSN:1517-4549  </line>
    <line>DOSSIÊ </line>
    <line>CORPORAÇÃO TRANSNACIONAL E TRABALHO LOCAL:  </line>
    <line>estratégias corporativas, organização sindical e duas greves na  </line>
    <line>Vale Canadá (2009-2021) </line>
    <line>Thiago Aguiar*1 </line>
    <line>Resumo </line>
    <line>O analisa mudanças estratégia da os trabalhistas as - </line>
    <line>ções organização com em greves e em da em  </line>
    <line>Sudbury, Neste em a adquiriu mineradora e, 2009, suas  </line>
    <line>atividades, reduzir poder dos ores, bônus, planos pensão  </line>
    <line>políticas segurança, que à longa do privado em anos,  </line>
    <line>com vitória da empresa. Em 2021, durante a pandemia de COVID-19, houve uma nova greve, na qual o sindi - </line>
    <line>cato obteve ganhos importantes e se fortaleceu. O episódio revela o aprendizado do sindicato para enfrentar  </line>
    <line>o capita </line>
    <line>metais para a transição energética. O artigo baseia-se em entrevistas e em análise documental, com pesqui- </line>
    <line>sas de campo realizadas em 2016 e 2024.</line>
    <line>Palavras-chaves: Corporação Transnacional; Vale; Trabalho; Sindicalismo; Greves. </line>
    <line>*  Universidade de (Unicamp), de e Humanas, de  </line>
    <line>Campinas, São Paulo, Brasil. E-mail:  th.aguiar@gmail.com  Orcid:  https://orcid.org/0000-0001-6114-0208   </line>
    <line> Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)</line>
  </page>
  <page number="2">
    <line>2</line>
    <line>Thiago Aguiar</line>
    <line>INTRODUÇÃO: O TRABALHO COMO AGENTE POLÍTICO NO INTERIOR DA</line>
    <line>CORPORAÇÃO</line>
    <line>Este artigo apresenta os resultados de pesquisa sobre as transformações corporativas na Vale S.A.,</line>
    <line>os conflitos trabalhistas e as mudanças na organização sindical local, focalizando as causas e os</line>
    <line>resultados de duas greves ocorridas nas operações canadenses da empresa em Sudbury (Ontário,</line>
    <line>em 2009-2010 e em 2021), de modo a verificar a capacidade dos trabalhadores locais e de seu</line>
    <line>sindicato constituírem-se como agentes políticos no interior da corporação. A pesquisa, realizada</line>
    <line>em diferentes momentos entre 2015 e 2025</line>
    <line>1</line>
    <line>, teve como objetivo analisar o processo pelo qual a</line>
    <line>Vale tornou-se uma corporação transnacional (CTN) e suas consequências para distintos agentes,</line>
    <line>como trabalhadores, sindicalistas, gestores e acionistas.</line>
    <line>O surgimento de CTNs vincula-se às transformações na produção, nas classes sociais, no Estado-</line>
    <line>-nação e nas relações de trabalho, bem como nos fluxos de capitais, mercadorias, informações e</line>
    <line>dados, possibilitadas pela emergência de uma economia capitalista globalizada a partir do último</line>
    <line>quarto do século XX. Além disso, em seu controle, ganharam importância fundos de investimento</line>
    <line>com investidores espalhados pelo planeta (Phillips, 2018; 2024), tornando muito complexa a atri-</line>
    <line>buição de origem nacional de seus proprietários.</line>
    <line>Para William I. Robinson (2004; 2014), a base da globalização econômica é o surgimento do capi-</line>
    <line>tal transnacional e de uma classe capitalista transnacional (CCT) a partir da constituição de um</line>
    <line>circuito globalizado de trabalho, produção e acumulação, tal como descrito pela literatura sobre</line>
    <line>cadeias de valor globais (Gereffi</line>
    <line>et al.</line>
    <line>, 2005) e redes globais de produção (RGPs) (Henderson</line>
    <line>et al.</line>
    <line>,</line>
    <line>2011). O enquadramento de RGPs foi particularmente útil na investigação por oferecer uma com-</line>
    <line>preensão da produção como um processo social, multiescalar e estruturado em rede. Por meio de</line>
    <line>conceitos-chave como valor (sua criação, ampliação e captura), poder (suas fontes e formas de</line>
    <line>exercício – como o poder corporativo da CTN, o poder coletivo de trabalhadores e comunidades,</line>
    <line>e o poder institucional de agentes públicos e estatais) e enraizamento (os arranjos espaço-tem-</line>
    <line>porais nos quais se insere a CTN, condicionando suas estratégias corporativas e suas formas de</line>
    <line>relacionamento com outros agentes), tal perspectiva teórica permite levar em consideração as</line>
    <line>relações entre distintos agentes econômicos e sociais envolvidos na produção capitalista.</line>
    <line>Neste artigo, o foco incidirá nas formas de exercício do poder coletivo dos trabalhadores da Vale</line>
    <line>em Sudbury, de modo a constituir-se como um agente político no interior da CTN e disputar a cap-</line>
    <line>tura de valor com acionistas e gestores em um contexto de transformações na estratégia corpora-</line>
    <line>tiva da empresa. Trata-se de uma questão relevante, já que a acumulação capitalista globalizada</line>
    <line>trouxe consequências significativas para as relações entre capital e trabalho: se a CCT passou a</line>
    <line>dispor de maior mobilidade global, a classe trabalhadora permaneceu, em grande medida, sujeita</line>
    <line>a controles estatais de fluxos migratórios e circulação de pessoas, além das restrições à organiza-</line>
    <line>ção dos trabalhadores em escala global. Desse modo, muito embora a classe trabalhadora parti-</line>
    <line>cipe de processos produtivos geograficamente dispersos ou diretamente comandados por CTNs,</line>
    <line>esta ainda se apresenta como uma classe trabalhadora de caráter nacional ou até mesmo local.</line>
    <line>Por isso, o enquadramento do caso proposto busca localizar-se no diálogo entre perspectivas da</line>
    <line>1</line>
    <line>Durante doutorado realizado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo – PPGS-USP</line>
    <line>(2015-2019) e pesquisas de pós-doutorado realizadas na USP (2020-2021) e na Universidade Estadual de Campinas – Uni-</line>
    <line>camp (2021-2025), com estágio pós-doutoral no King’s College London (2024-2025).</line>
  </page>
  <page number="3">
    <line>3</line>
    <line>CORPORAÇÃO TRANSNACIONAL E TRABALHO LOCAL</line>
    <line>Sociologia Econômica e do Trabalho, que vêm acompanhando as mudanças da base produtiva em</line>
    <line>uma economia globalizada. Como argumenta Nina Bandelj (2009), o diálogo entre essas subdisci-</line>
    <line>plinas pode ampliar as fronteiras de investigação de ambas. Neste artigo, argumenta-se que o tra-</line>
    <line>balho é um dos agentes fundamentais da corporação, em conjunto com proprietários e gestores.</line>
    <line>Além disso, é necessário verificar as linhas divisórias que os separam, bem como suas distintas</line>
    <line>capacidades de exercício do poder. Para fazê-lo, é fundamental analisar as relações entre agentes</line>
    <line>no interior da CTN. De acordo com Rodrigo Santos (2017), a “governança corporativa” estabelece</line>
    <line>formas institucionais de organização da propriedade, do controle, da distribuição dos resultados</line>
    <line>e dos limites à intervenção dos agentes no interior de companhias de capital aberto.</line>
    <line>A Vale oferece uma posição privilegiada para analisar tais relações. A abordagem de Rodrigo San-</line>
    <line>tos (2019) sobre as transformações na “governança corporativa” da empresa, por exemplo, partiu</line>
    <line>do modelo proposto por Aguilera e Jackson (2003) para analisar os diferentes interesses de pro-</line>
    <line>prietários (financeiros ou estratégicos) e de gestores (autonomia ou comprometimento) nas mu-</line>
    <line>danças recentes na composição do Conselho de Administração (CA) da mineradora. Pela presença</line>
    <line>marcante de agentes estatais (BNDESPar) e paraestatais (fundos de pensão de empresas estatais)</line>
    <line>no controle da companhia, Santos propôs incorporar o Estado como um terceiro agente relevante</line>
    <line>no modelo.</line>
    <line>Tal enquadramento oferece um caminho de investigação interessante para o caso em questão, já</line>
    <line>que, para a nova escala de competição global com que precisam lidar as CTNs, é preciso</line>
    <line>também</line>
    <line>compreender o papel determinante dos trabalhadores, os quais, entre outras coisas, podem impor</line>
    <line>custos e se constituir como agentes políticos na corporação</line>
    <line>2</line>
    <line>. Assim, neste artigo, propõe-se con-</line>
    <line>siderar o trabalho com um quarto agente fundamental na análise da “governança corporativa”, o</line>
    <line>que possibilitará avaliar de que modo as formas de organização e conflito gestadas pelos trabalha-</line>
    <line>dores no interior da CTN podem adaptar-se e/ou influenciar as estratégias corporativas, ou seja,</line>
    <line>o “processo de definição racional e execução contínua de fins específicos, voltado à obtenção de</line>
    <line>valor” (Santos e Ramalho, 2015, p. 3), levando em conta dimensões financeira e de investimento;</line>
    <line>de mercado; de relações de trabalho e sindicais.</line>
    <line>Se, em trabalhos anteriores (Aguiar, 2022; 2024), as mencionadas transformações na “governança</line>
    <line>corporativa” da Vale e o desenvolvimento de uma estratégia corporativa voltada à transnaciona-</line>
    <line>lização da companhia foram objeto de discussão, o esforço deste artigo será concentrado na des-</line>
    <line>crição dos dois principais conflitos trabalhistas da Vale no século XXI, ambos em suas operações</line>
    <line>canadenses, mostrando como o poder coletivo dos trabalhadores enfrentou o poder corporativo</line>
    <line>em diferentes momentos e como logrou fortalecer sua posição com a crescente importância estra-</line>
    <line>tégica, para a mineradora, da extração de metais básicos para a transição energética.</line>
    <line>O artigo baseia-se em entrevistas com trabalhadores e sindicalistas da Vale Canadá, e na análise de</line>
    <line>documentos corporativos e sindicais. As pesquisas de campo, inspiradas pelo “método do estudo</line>
    <line>de caso ampliado” (Burawoy, 2014), foram realizadas em Sudbury em dois momentos: entre ou-</line>
    <line>tubro e novembro de 2016, e em abril de 2024. Na primeira ida a campo, recolheram-se materiais</line>
    <line>sobre a transnacionalização da Vale e seus efeitos sobre trabalhadores e sindicatos da empresa;</line>
    <line>em particular, realizaram-se entrevistas sobre a greve ocorrida entre 2009 e 2010. Na última, de-</line>
    <line>pois de oito anos, realizou-se uma espécie de “revisita etnográfica” com o objetivo de “entender e</line>
    <line>explicar a variação e, em especial, compreender a diferença ao longo do tempo” (Burawoy, 2014, p.</line>
    <line>2</line>
    <line>Na Vale, por exemplo, há representação dos trabalhadores no CA.</line>
  </page>
  <page number="4">
    <line>4</line>
    <line>Thiago Aguiar</line>
    <line>102). Buscou-se, então, debater os resultados da pesquisa anterior com trabalhadores e dirigentes</line>
    <line>do sindicato USW Local 6500 (que representa os trabalhadores da Vale em Sudbury), realizar no-</line>
    <line>vas entrevistas e recolher materiais sobre a greve de 2021</line>
    <line>3</line>
    <line>.</line>
    <line>Além desta Introdução, o artigo conta com outras três seções: a primeira reconstrói o processo de</line>
    <line>transnacionalização da Vale, sua atuação no Canadá a partir de 2006, e a greve de 2009 a 2010 nas</line>
    <line>instalações canadenses da empresa; a segunda focaliza as transformações recentes na estratégia</line>
    <line>corporativa da mineradora, que ampliaram a importância das operações de metais básicos e a gre-</line>
    <line>ve de 2021 em Sudbury, de modo a avaliar as razões da vitória dos trabalhadores no conflito; por</line>
    <line>fim, nas considerações finais, sintetizam-se os argumentos apresentados ao longo da exposição.</line>
    <line>A VALE NO CANADÁ: TRANSNACIONALIZAÇÃO CORPORATIVA E A GREVE DE</line>
    <line>2009-2010</line>
    <line>A Vale S.A. é a quinta maior mineradora global em valor de mercado (PricewaterhouseCoopers,</line>
    <line>2024) e uma das principais produtoras de minério de ferro, pelotas e níquel. Operando em 18</line>
    <line>países nas Américas, Europa, Ásia e Oceania, em 2023, a empresa tinha mais de 234 mil trabalha-</line>
    <line>dores em todo o mundo, registrando receitas de US$ 41,784 bilhões, lucro de US$ 7,983 bilhões e</line>
    <line>distribuição de US$ 6,1 bilhões em dividendos aos acionistas (Vale, 2024).</line>
    <line>Fundada pelo governo Getúlio Vargas, em 1942, como Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), a</line>
    <line>empresa estatal teve papel importante na industrialização do país e se tornou uma grande expor-</line>
    <line>tadora, fundamental para a obtenção de divisas estrangeiras, durante a ditadura militar – período</line>
    <line>marcado pela adoção, pela mineradora, de uma estratégia de relações de trabalho e sindicais au-</line>
    <line>toritária. Nos anos 1980, foram inauguradas as enormes minas do Projeto Ferro Carajás, no Pará,</line>
    <line>que impulsionaram a produção da empresa (Minayo, 2004).</line>
    <line>A transformação da Vale em uma CTN deu-se a partir da privatização da antiga CVRD em 1997.</line>
    <line>Iniciou-se, então, o processo de interpenetração de capitais transnacionais e nacionais (estatais,</line>
    <line>paraestatais e privados) no controle da companhia. Em um primeiro momento, por meio de um</line>
    <line>acordo de acionistas vigente de 1997 a 2017, o comando da mineradora estava concentrado no</line>
    <line>grupo controlador Valepar – composto por fundos de pensão de empresas estatais (como Previ,</line>
    <line>Funcef e Funcesp), bancos estatais e privados brasileiros (BNDES e Bradesco), e o grupo japonês</line>
    <line>Mitsui. Com o fim do acordo de acionistas pós-privatização, um novo arranjo consolidou a trans-</line>
    <line>formação da Vale em uma</line>
    <line>corporation</line>
    <line>, com a dissolução da Valepar, a pulverização do capital e as</line>
    <line>mudanças na “governança corporativa”, como o aumento do número de conselheiros independen-</line>
    <line>tes (Santos, 2017; 2019). Tais transformações foram acompanhadas pelo protagonismo recente</line>
    <line>de fundos de investimento transnacionais (BlackRock, Vanguard e Capital Group, entre outros)</line>
    <line>nas decisões estratégicas da mineradora (Aguiar, 2024).</line>
    <line>No início do século XXI, durante o</line>
    <line>boom</line>
    <line>das</line>
    <line>commodities</line>
    <line>minerais, houve um aumento dos fluxos</line>
    <line>de investimento estrangeiro direto promovidos pela companhia. A Vale passou a gerir uma força</line>
    <line>3</line>
    <line>Ao longo do artigo, serão reproduzidas declarações obtidas em entrevistas durante a “revisita etnográfica” de abril de 2024.</line>
    <line>Os entrevistados são apresentados com nomes fictícios, de modo a preservar sua identidade, à exceção, por sua notória</line>
    <line>posição institucional, de Jamie West, antigo trabalhador da Inco/Vale e membro do USW Local 6500 que é, desde 2018,</line>
    <line>deputado provincial de Ontário. As entrevistas foram realizadas em inglês e as declarações foram traduzidas para o portu-</line>
    <line>guês.</line>
  </page>
  <page number="5">
    <line>5</line>
    <line>CORPORAÇÃO TRANSNACIONAL E TRABALHO LOCAL</line>
    <line>de trabalho espalhada pelos cinco continentes, com o objetivo de diversificar sua produção, muito</line>
    <line>concentrada na extração de minério de ferro no Brasil. O marco mais importante desse processo</line>
    <line>foi a aquisição, em 2006, da mineradora canadense Inco por US$ 19 bilhões. Tratava-se de uma</line>
    <line>grande produtora de cobre e, especialmente, de níquel – a maior produtora deste metal do Canadá</line>
    <line>e a segunda maior do mundo, posição assumida pela Vale desde então.</line>
    <line>A aquisição da Inco ocorreu em um período de significativo aumento dos preços do níquel no</line>
    <line>mercado mundial, como ocorreu com outras</line>
    <line>commodities</line>
    <line>minerais durante o</line>
    <line>boom</line>
    <line>: a tonelada</line>
    <line>métrica do metal saltou de pouco mais de US$ 14 mil em dezembro de 2003 para US$ 52 mil em</line>
    <line>maio de 2007. Particularmente no ano de 2006, quando foi concluída a aquisição da mineradora</line>
    <line>canadense pela Vale, os preços do níquel apresentaram uma alta significativa, passando de cerca</line>
    <line>de US$ 15 mil, em janeiro, para quase US$ 35 mil em dezembro. No entanto, pouco depois, em</line>
    <line>decorrência da crise global de 2007 e 2008, houve acentuada queda nos preços do níquel e do</line>
    <line>minério de ferro, reduzindo as receitas da Vale e pressionando seus lucros. Os preços da tonelada</line>
    <line>métrica do níquel chegaram a ficar abaixo de US$ 10 mil em dezembro de 2008. A partir desse</line>
    <line>momento, houve uma recuperação, mas, ao contrário do minério de ferro, os valores não voltaram</line>
    <line>a aproximar-se do pico registrado em 2007 nos anos seguintes</line>
    <line>4</line>
    <line>.</line>
    <line>A queda nos preços do níquel é o pano de fundo da reestruturação que a Vale conduziu em suas</line>
    <line>operações canadenses a partir de 2009, ano em que se encerrou o último contrato assinado pelos</line>
    <line>trabalhadores locais com a antiga gestão da Inco. Os trabalhadores canadenses da Vale são repre-</line>
    <line>sentados pelo sindicato multinacional United Steelworkers (USW), por meio de suas represen-</line>
    <line>tações locais. A Inco desenvolveu forte enraizamento territorial na região de Sudbury (Ontário),</line>
    <line>onde se localizam suas minas e instalações mais importantes e onde atua o sindicato USW Local</line>
    <line>6500.</line>
    <line>As tensas negociações de um novo contrato representaram um choque, para os trabalhadores ca-</line>
    <line>nadenses, com a estratégia de relações de trabalho e sindicais da Vale desenvolvida historicamen-</line>
    <line>te no Brasil. Em Sudbury, cidade onde a mineração de níquel iniciou-se no final do século XIX, a</line>
    <line>Vale encontrou uma comunidade marcada pelo trabalho na Inco há gerações, com forte vinculação</line>
    <line>ao sindicato local – diferentemente da experiência dos trabalhadores da Vale no Brasil, onde há</line>
    <line>alta rotatividade, além de sindicatos pulverizados e enfraquecidos diante do poder corporativo da</line>
    <line>empresa. Charles (há cerca de 25 anos na companhia, mineiro de terceira geração de família tra-</line>
    <line>balhadora na Inco/Vale) e Anthony (mecânico de equipamentos na Inco/Vale há mais de 20 anos),</line>
    <line>assim descreveram a chegada da Vale à cidade:</line>
    <line>Eu sou um mineiro de terceira geração e minha filha agora está na Vale. A gente nem sabia</line>
    <line>de onde a Vale tinha vindo, só sabíamos que alguém tinha chegado e passou a nos tratar de</line>
    <line>uma forma muito diferente do que estávamos acostumados. (Charles, em entrevista)</line>
    <line>Foi na base da imposição. Eles chegaram com uma arrogância do tipo: “Não, não, nós somos</line>
    <line>a elite da sociedade. Vamos ditar tudo. E vocês são camponeses. Só vão obedecer”. Foi assim</line>
    <line>que eu me senti naquela situação (Anthony, em entrevista,</line>
    <line>tradução nossa</line>
    <line>).</line>
    <line>4</line>
    <line>Para uma análise mais detida do</line>
    <line>boom</line>
    <line>e do pós-</line>
    <line>boom</line>
    <line>das</line>
    <line>commodities</line>
    <line>, ver Wanderley (2017). Uma avaliação dos efeitos</line>
    <line>da variação dos preços das</line>
    <line>commodities</line>
    <line>minerais para as decisões estratégicas da Vale encontra-se em Aguiar (2022, espe-</line>
    <line>cialmente pp. 71-73 e 251-253).</line>
  </page>
  <page number="6">
    <line>6</line>
    <line>Thiago Aguiar</line>
    <line>De julho de 2009 a julho de 2010, em Sudbury, desenvolveu-se a maior greve no setor privado</line>
    <line>canadense em 30 anos. Durante as negociações do novo contrato coletivo, a Vale buscou:</line>
    <line>1. Reduzir a força de trabalho por meio da introdução de planos de demissão voluntária. Tal ob-</line>
    <line>jetivo foi facilitado pela própria duração da greve, já que muitos trabalhadores, sem receber</line>
    <line>salários por um ano, mudaram-se da cidade e buscaram outras ocupações;</line>
    <line>2. Reduzir os custos do trabalho, particularmente com bônus anuais. A Vale extinguiu o</line>
    <line>nickel</line>
    <line>bonus</line>
    <line>pago pela Inco, vinculado às variações do preço do níquel no mercado, que podia ultra-</line>
    <line>passar US$ 50 mil ou US$ 60 mil anuais. A Vale limitou o pagamento a um teto de US$ 15 mil</line>
    <line>por ano e o vinculou a metas e produtividade, em modelo semelhante ao da Participação nos</line>
    <line>Lucros e Resultados (PLR) no Brasil;</line>
    <line>3. Substituição dos antigos planos de pensão de benefício definido, nos quais os trabalhadores</line>
    <line>aposentados mantêm rendimentos equivalentes aos da ativa, por planos de contribuição defi-</line>
    <line>nida, nos quais o valor da aposentadoria varia de acordo com investimentos realizados pelos</line>
    <line>trabalhadores ao longo do tempo. A Vale inicialmente previa fazer a mudança para todos os</line>
    <line>trabalhadores, mas, no acordo de fim greve em 2010, negociou que a mudança valeria apenas</line>
    <line>para novos contratados; e</line>
    <line>4. Enfraquecer o poder coletivo dos trabalhadores, reduzindo a capacidade de intervenção do</line>
    <line>sindicato USW Local 6500 no processo de produção. A Vale buscou reduzir as etapas dos</line>
    <line>procedimentos de</line>
    <line>grievances</line>
    <line>(queixas). Trata-se de um aspecto importante do modelo de re-</line>
    <line>lações industriais norte-americano, vinculado à presença, no local de trabalho, de</line>
    <line>stewards</line>
    <line>(representantes), capazes de apresentar reclamações aos superiores e buscar a resolução de</line>
    <line>conflitos. Além disso, a Vale decidiu encaminhar milhares de casos de</line>
    <line>grievances</line>
    <line>para arbitra-</line>
    <line>gem externa, ampliando os custos do sindicato com advogados. Após a greve, foi imposta uma</line>
    <line>nova política de segurança nas minas, que deu maior liberdade para a atuação dos gerentes no</line>
    <line>local de produção, e um novo código de álcool e drogas, por meio do qual</line>
    <line>stewards</line>
    <line>e trabalha-</line>
    <line>dores mais combativos, em momentos de conflito, passaram a ser encaminhados para realizar</line>
    <line>exames de urina.</line>
    <line>A longa greve, na qual a empresa praticamente impôs toda a sua pauta de reestruturação, também</line>
    <line>buscou fragilizar a relação do sindicato com os trabalhadores e a comunidade. Muitos entrevista-</line>
    <line>dos relataram suas estratégias de sobrevivência durante o ano em que não receberam salários ao</line>
    <line>mesmo tempo em que participavam dos piquetes de greve e atividades de mobilização. Apesar do</line>
    <line>apoio do fundo de greve do sindicato e de bancos de alimentos comunitários, a maior parte dos</line>
    <line>trabalhadores dependeu do apoio das famílias, buscou empregos em outras cidades, endividou-se,</line>
    <line>vendeu carros e casas.</line>
    <line>Nas entrevistas em Sudbury, foram muito comuns relatos sobre as dificuldades enfrentadas pelos</line>
    <line>trabalhadores e suas famílias durante a greve de 2009-2010. Samuel, por exemplo, começou a</line>
    <line>trabalhar na Inco em 2006, pouco antes da aquisição pela Vale. Mecânico e</line>
    <line>steward</line>
    <line>, da terceira</line>
    <line>geração de uma família de mineiros na companhia, ele relembrou a crise familiar por que passou:</line>
    <line>Bem, eu tive que vender minha casa. Eu passei por uma separação. Meu filho estava vindo</line>
    <line>ao mundo. (...) A empresa realmente parecia que tinha algo a provar para Sudbury, por</line>
    <line>causa dos comentários que fizeram sobre mudar a cultura aqui (...). Não digo isso de forma</line>
    <line>desrespeitosa ao povo brasileiro, mas era assim que a empresa ficava dizendo: vocês vão se</line>
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  <page number="7">
    <line>7</line>
    <line>CORPORAÇÃO TRANSNACIONAL E TRABALHO LOCAL</line>
    <line>adaptar ao jeito brasileiro. (...) Era quase como uma ditadura, sabe? (Samuel, em entrevista,</line>
    <line>tradução nossa</line>
    <line>).</line>
    <line>A derrota da greve de 2009-2010 deveu-se, sobretudo, à possibilidade de a empresa esten-</line>
    <line>der o conflito em um momento de baixa dos preços do níquel. Além disso, a Vale aproveitou</line>
    <line>o período de greve para realizar a manutenção de equipamentos e reestruturação das minas</line>
    <line>por meio de empresas terceirizadas. Desse modo, após a greve, a Vale voltaria a produzir em</line>
    <line>Sudbury com custos reduzidos. Como destacou o deputado Jamie West, que trabalhava na Vale</line>
    <line>durante a greve:</line>
    <line>Isso acabou se tornando uma boa forma, eu acho, de a Vale se proteger dos acionistas, por-</line>
    <line>que eles tinham estoques acumulados por todo lado, não tinham para quem vender o ní-</line>
    <line>quel e, além disso, o preço estava muito baixo, sabe? (...) Eu acho que essa é uma das razões</line>
    <line>pelas quais isso durou tanto tempo (Jamie West, em entrevista,</line>
    <line>tradução nossa</line>
    <line>).</line>
    <line>O sindicato USW Local 6500 teve de enfrentar um conjunto de novas táticas às quais não estava</line>
    <line>habituado. Durante as negociações, a Vale não foi representada por seus gestores locais, como</line>
    <line>anteriormente na Inco, mas pelo escritório de advocacia Hicks Morley – “o maior e mais pró-pa-</line>
    <line>tronal escritório de advocacia de recursos humanos no Canadá” (Peters, 2010, p. 89). A Vale levou</line>
    <line>a Sudbury muitos seguranças, que passaram a vigiar trabalhadores nos piquetes e mesmo em suas</line>
    <line>atividades cotidianas na cidade. A mineradora processou vários sindicalistas que participavam</line>
    <line>das negociações e trabalhadores ativos nos piquetes, responsabilizando-os pelos custos da para-</line>
    <line>lisação da produção. Como contou Jack, sindicalista que participou de comitê de negociação da</line>
    <line>greve de 2009 e teve papel destacado durante a greve de 2021:</line>
    <line>Eu, pessoalmente, tive dois processos de um milhão de dólares [canadenses] contra mim, e</line>
    <line>eu era apenas um membro da diretoria executiva. Mas, segundo eles, como alegou o escritó-</line>
    <line>rio Hicks Morley, nós estávamos bloqueando o acesso [às instalações da empresa]. Era algo</line>
    <line>como um milhão de dólares contra cada um dos membros da diretoria (Jack, em entrevista,</line>
    <line>tradução nossa</line>
    <line>).</line>
    <line>Houve, ainda, durante a greve, a contratação de trabalhadores temporários com o objetivo de</line>
    <line>demonstrar que a produção continuaria e assim desmoralizar os grevistas. Tais trabalhadores,</line>
    <line>conhecidos como</line>
    <line>scabs</line>
    <line>(termo pejorativo para fura-greves que significa, literalmente, sarna ou</line>
    <line>crosta de ferida em inglês), foram particularmente recrutados na província francófona vizinha</line>
    <line>do Quebec, visando a explorar as rivalidades regionais canadenses. Como relembrou Jamie West:</line>
    <line>Havia</line>
    <line>scabs</line>
    <line>fazendo o nosso trabalho, e eles estavam operando. Víamos a fumaça saindo</line>
    <line>da chaminé. Eu realmente acho que a ideia da Vale, como uma empresa maior, era: “Isso</line>
    <line>vai quebrá-los, porque estamos funcionando e sendo lucrativos sem eles, e eles vão ter que</line>
    <line>voltar rastejando” (Jamie West, em entrevista,</line>
    <line>tradução nossa</line>
    <line>).</line>
    <line>Ao final de um ano de resistência, os trabalhadores não foram capazes de reverter a reestrutu-</line>
    <line>ração imposta pela Vale, que pôde adequar as novas operações canadenses à sua estratégia de</line>
    <line>relações de trabalho e sindicais, o que também envolveu substituição de chefias vindas da antiga</line>
    <line>Inco. Para os trabalhadores, o período posterior à greve foi difícil, com novos gestores menos pro-</line>
    <line>pensos a negociar com o sindicato e com os</line>
    <line>stewards</line>
    <line>. Apesar disso, a derrota trouxe aprendizados</line>
    <line>ao sindicato sobre como lidar com a corporação transnacional.</line>
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    <line>8 </line>
    <line>A VITÓRIA NA GREVE DE 2021: TRANSFORMAÇÕES NA ESTRATÉGIA  </line>
    <line>CORPORATIVA DA VALE E APRENDIZADO DO USW LOCAL 6500 </line>
    <line>Após a reestruturação das operações da Vale em Sudbury, em 2010, os sindicalistas relataram difi - </line>
    <line>culdades na relação com os gestores da empresa, acúmulo de  grievances e de casos em arbitragem,  </line>
    <line>crescimento terceirizações aumento número acidentes trabalho, fatais,  </line>
    <line>em decorrência da nova política de segurança. A Vale, no entanto, também enfrentaria um período  </line>
    <line>turbulento. Em meados de 2011, a trajetória de recuperação dos preços das  commodities minerais  </line>
    <line>seria e consolidaria período boom , preços patamares mais  </line>
    <line>baixos do que os da década anterior. </line>
    <line>As de novo para período 2015 2020, mantiveram  </line>
    <line>os do anterior, pouca por do de  </line>
    <line>às A por vez, importantes em “governança  - </line>
    <line>porativa”. pano fundo mudanças, a redução receitas lucros  </line>
    <line>pós-boom 5 ; crise brasileira 2015 2016; a das de  </line>
    <line>em – pela (joint venture Vale a Billiton) em (MG),  </line>
    <line>e mina do em em (MG), mataram de  </line>
    <line>e levaram a companhia a enfrentar processos judiciais no Brasil e no exterior, provisionar bilhões  </line>
    <line>de dólares em recursos para reparações, suspender temporariamente o pagamento de dividendos  </line>
    <line>e substituir o comando executivo da companhia. </line>
    <line>Como mencionado, encerramento acordo acionistas mineradora, 2017, à  </line>
    <line>dissolução Valepar, unificação e maior de de  </line>
    <line>transnacionais no CA da empresa (Santos, 2019; Aguiar, 2024). Os novos agentes no CA definiram,  </line>
    <line>como objetivo da companhia, recuperar o valor de mercado e os lucros, reduzir o endividamento e  </line>
    <line>ampliar a distribuição de dividendos. A Vale anunciou uma série de desinvestimentos e uma nova  </line>
    <line>estratégia corporativa, concentrada em suas atividades  core  – sobretudo, as operações de extração  </line>
    <line>de minério de ferro no Brasil e de níquel no Canadá. </line>
    <line>A estratégia da beneficiou-se aumento dos das  </line>
    <line>commodities durante pandemia COVID-19, que um significativo  </line>
    <line>das receitas e do lucro da mineradora. Os preços do níquel, por exemplo, aumentaram de US$ 13,5  </line>
    <line>mil, janeiro 2020, mais US$ mil, dezembro 2021, a até  </line>
    <line>alcançar quase US$ 34 mil em março de 2022 6. </line>
    <line>Nesse as canadenses companhia maior Houve - </line>
    <line>mento investimentos extração metais à energética. 2022, Vale  </line>
    <line>firmou novas alianças na América do Norte: uma parceria para fornecer níquel a longo prazo para  </line>
    <line>a de da e acordo com General garantindo  - </line>
    <line>necimento de para produção baterias veículos dessas  </line>
    <line>(Aguiar, 2024). Tais ações refletem a busca pela diversificação das fontes de receita da mineradora,  </line>
    <line>tradicionalmente das de de para China, por sua  </line>
    <line>presença na América do Norte em um contexto de crescimento das tensões geopolíticas, nas quais  </line>
    <line>5  A mineradora, por exemplo, teve um prejuízo histórico de quase R$ 45 bilhões em 2015. </line>
    <line>6   De com disponíveis  https://www.indexmundi.com/pt/pre%C3%A7os-de-mercado/?mercadoria=n% - </line>
    <line>c3%adquel&amp;meses=240 . Acesso: 26 mar. 2026.</line>
  </page>
</document>
