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<document>
  <page number="1">
    <line>1 </line>
    <line>Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24595, 2026 </line>
    <line>DOI:10.21669/tomo.v45.24595  </line>
    <line>Dossiê: Visualidades Urbanas: poder, subjetividades,  </line>
    <line>sociabilidades e o existir citadino </line>
    <line>E-ISSN:2318-9010 / ISSN:1517-4549  </line>
    <line>DOSSIÊ </line>
    <line>AFINANDO AS DIFERENÇAS NA CHEGADA À CIDADE:  </line>
    <line>Repertórios sensoriais de migrantes </line>
    <line>internacionais no Rio de Janeiro </line>
    <line>Tilmann Heil*1 </line>
    <line>Resumo </line>
    <line>Migrantes internacionais que chegam à cidade desigual do Rio de Janeiro se deparam com diferenças e hie- </line>
    <line>rarquias étnico-raciais, de classe e gênero, que constituem a paisagem urbana e os corpos que nela circulam.  </line>
    <line>A com senegaleses espanhóis, na de analisa estes  </line>
    <line>envolveram de forma diferenciada com as atmosferas afetivas e estéticas coletivas proporcionadas pelos  </line>
    <line>espaços e habitaA de abordagem e os ur- </line>
    <line>banos estão como de sensoriais. analisar repertórios  </line>
    <line>emergentes trajetórias e dos o revela os  </line>
    <line>se sintonizam nas densas paisagens urbanas e nas contradições e contingências entre experiências e sen- </line>
    <line>sibilidades, de e medo curiosidade. heterogeneidade repertórios  </line>
    <line>migrantes reflete e co-constitui esse mundo urbano denso, multifacetado e desafiador. </line>
    <line>Palavras-chaves: Desigualdade urbana; Migração; Interseccionalidade; Performatividade; Fenomenologia  </line>
    <line>crítica.</line>
    <line>*   Departamento Antropologia, Bélgica Universidade do de PPGAS/MN, de  </line>
    <line>Antropologia Historia, de Brasil. tilmann.heil@kuleuven.be https://orcid.org/0000-0001- </line>
    <line>9337-8448. </line>
    <line> Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)</line>
  </page>
  <page number="2">
    <line>2 </line>
    <line>INTRODUÇÃO </line>
    <line>Repertórios densos minha ao a contemporânea   </line>
    <line>migrantes na cidade. Os migrantes recém-chegados de países europeus e africanos, eu incluído, lida-</line>
    <line>vam com encontros, projeções e experiências profundamente corporais para viver e apreciar o mun- </line>
    <line>do a havíamos À vista com aos anos nossa </line>
    <line>chegada à cidade (Meeus; Arnaut; Van Heur, 2018; Saunders, 2010), meus interlocutores do Senegal </line>
    <line>e da Espanha e eu estávamos debatendo estereótipos muitas vezes preconceituosos sobre geografia, </line>
    <line>raça, e a de inteligíveis pessoas os da No logo </line>
    <line>ficou que também às e espaciais molda- </line>
    <line>vam os sentimentos de medo e curiosidade na cidade. Ao fazer isto, não pudemos deixar de tocar em  </line>
    <line>tabus locais que controlam o discurso racista e misógino, bem como o orgulho coletivo da cidade. </line>
    <line>Minha antropológica do com do e Espa- </line>
    <line>nha, viviam Rio Janeiro o dos 2000. trabalhando  </line>
    <line>com de classes trajetórias migração origens, como  </line>
    <line>suas locais transnacionais as relações a e habitantes, </line>
    <line>tanto no cotidiano quanto em situações de alta densidade sensorial. Suas experiências se situam  </line>
    <line>no de estratégia mercantilização do de que, anos  </line>
    <line>relançou a marca da “cidade maravilhosa” para preparar o palco internacional tanto para os Jogos  </line>
    <line>Olímpicos para Copa Mundo Jaguaribe, A explorou estética  - </line>
    <line>mente da tensionada presença tanto beleza quanto  </line>
    <line>da expansão Isso parte materialidade da que origem  </line>
    <line>sensações mais variadas, situadas, de forma desconfortável, em hierarquias profundas. Os recém- </line>
    <line>-chegados invocavam prontamente a beleza natural da cidade e suas produções culturais entre  </line>
    <line>as atmosferas afetivas mais proeminentes. No entanto, a onipresença da violência, do crime e da  </line>
    <line>desigualdade qualqtentativa de revelando profundas.  </line>
    <line>Em sintonia com a interseção fundadora entre racismo e sexismo, os recém-chegados rapidamen- </line>
    <line>te abordaram os corpos dos cariocas nas suas dimensões de gênero e de raça, derretendo a beleza  </line>
    <line>topográfica incorporada a visibilidade condições desiguais  </line>
    <line>2018; Silva, 2006; Pravaz, 2014; Roth-Gordon, 2017; Roth-Gordon; Larkins, 2025). </line>
    <line>Abordo um ambiente urbano extremamente carregado – hierárquico, desigual, muitas vezes vio - </line>
    <line>lento e um local privilegiado de desejo racializado. Portanto, minha análise procura entender as  </line>
    <line>distintas intensidades sensoriais de atores urbanos frente aos “binários fantasmáticos de medo e  </line>
    <line>desejo governaram representação figura no colonial” Fanon  </line>
    <line>1952; 1996, 17-18). experiências da ambas, negritu- </line>
    <line>de e a branquitude, e as suas intersecções com outros marcadores sociais da diferença estavam  </line>
    <line>em Os sensoriais recém-chegados profundamente como  </line>
    <line>próprios posicionados às trajetórias. revelavam únicas se  </line>
    <line>relacionar com as distintas camadas da paisagem urbana que gradualmente passaram a habitar.  </line>
    <line>Frente à experiência transnacional da diferença étnico-racial, de gênero, sexualidade, classe e re- </line>
    <line>ligião de recém-chegados, o Rio de Janeiro lhes garantia um turbilhão sensorial e emocional, mis- </line>
    <line>turando tudo, desde euforia e desejo até desprezo e medo. Esses repertórios sensoriais compõem  </line>
    <line>um corporal reflexivo, nuançado, local transnacional - </line>
    <line>mente, das relações raciais, de gênero e de classe vividas, bem como dos preconceitos constituti - </line>
    <line>vos mundos contemporâneos Brasil além. enfatizam constante</line>
  </page>
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    <line>3 </line>
    <line>as multiplicidades e as contradições que marcam situações urbanas efêmeras, especialmente em  </line>
    <line>contextos de chegada. </line>
    <line>Mobilizo repertório como lente para nas locais  </line>
    <line>transnacionais, por considerações. (2007, 2) como - </line>
    <line>tropólogos “um explícito pelo semi-formalizado [o  </line>
    <line>prático uma na de repertório regras”. King que este  </line>
    <line>impulso frequentemente equivocado dos cientistas sociais de formular regras, enfatizando como  </line>
    <line>atores improvisam sobre abstratos, categorias  - </line>
    <line>nais lógicas poder. sintonia esta inspiro-me sociolinguística em uso  </line>
    <line>de repertório para entender a heterogeneidade social e cultural. Neste campo, repertório engloba  </line>
    <line>todos os “meios de fala” que as pessoas “sabem usar e por quê” para se comunicar; para eles, re- </line>
    <line>pertórios linguísticos são “complexos individuais, biograficamente organizados de recursos [que]  </line>
    <line>seguem ritmos vidas reais” Backus, p. 15).  </line>
    <line>que repertório constitui longo vida nas específicas pessoa fala,  - </line>
    <line>nando-se uma biografia indexical da pessoa. Adicionando um toque fenomenológico crítico a esse  </line>
    <line>termo-chave sociolinguística,  sensoriais passam a articular como os moradores da  </line>
    <line>cidade são afetados, afetam e se relacionam criativamente com os espaços e populações urbanas  </line>
    <line>em encontros Koefoed, a da história encontros  </line>
    <line>antecederam chegada cidade. altamente os sensoriais </line>
    <line>guias parciais e fragmentados para a multiplicidade urbana, às vezes esmagadora. </line>
    <line>Abordo o engajamento dos recém-chegados com a cidade e seus habitantes por meio de uma fe- </line>
    <line>nomenologia do (Simonsen; 2020). os senso - </line>
    <line>riais de recém-chegados em dois momentos que mostram a experiência dos meus interlocutores  </line>
    <line>em seus encontros com a cidade, as visualidades da desigualdade e as relações entre os corpos  </line>
    <line>urbanos, recém-chegados e residentes de longa data. 1  as específicas  </line>
    <line>atravessam as formas de se inscrever e relacionar com a cidade e as pessoas que a habitam. Nas  </line>
    <line>interações trajetórias, e emerge devida das  </line>
    <line>visuais nos outros sentidos e sensações para melhor entender como um mundo urbano emerge:  </line>
    <line>desafiador e desigual, porém também criativo e sedutor. </line>
    <line>ETNOGRAFIA ENTRE RECÉM-CHEGADOS </line>
    <line>Entre e acompanhei do e Espanha um pós-doutoral  </line>
    <line>na intersecção das antropologias da migração e urbana, que chegaram ao Rio de Janeiro desde  </line>
    <line>o dos 2000, um de meses, em regulares dois  </line>
    <line>seis meses. Dada minha pesquisa etnográfica anterior tanto na Espanha como no Senegal, conheci  </line>
    <line>muitos e espanhóis meio redes outros em  </line>
    <line>Também interlocutores /mais do senegaleses /por de  </line>
    <line>nas sociais. construir relação senegaleses espanhóis base nossa  </line>
    <line>experiência compartilhada de ter chegado recentemente ao Brasil, apesar de todas as nossas dife- </line>
    <line>1   Embora adote concepção de sensoriais, dimensão da não abordada - </line>
    <line>ticamente. uma pubna a dos sensoriais aqui com  </line>
    <line>conceitos como paisagens sonoras e ecologias acústicas (Aceska  et al., 2024; Bieletto-Bueno, 2021, 2017; Guillebaud, 2017;  </line>
    <line>Vedana, 2010; Fortuna, 2009).</line>
  </page>
  <page number="4">
    <line>4 </line>
    <line>renças quanto origem, religião, gênero, sexual opinião - </line>
    <line>tica. Dada a relação de confiança estabelecida ao longo dos anos, as tensões, às vezes substanciais,  </line>
    <line>causadas por nossas diferenças se tornaram terrenos férteis para a investigação etnográfica rígida  </line>
    <line>e a coprodução de conhecimentos relevantes. </line>
    <line>Durante meu trabalho de campo, participei de eventos seculares e religiosos semanais de sene - </line>
    <line>galeses, quais em de senegaleses (Heil, Entre  </line>
    <line>os circulei redes recém-chegados, quais repetidamente 60  </line>
    <line>80 em púbe privadas 2020a). todos meus - </line>
    <line>res principais, eu passava tempo nos seus dias de folga, antes e depois do trabalho, e durante os  </line>
    <line>intervalos. Frequentemente nos encontrávamos em suas casas, em cafés, bares, restaurantes ou  </line>
    <line>simplesmente uma em parque na Também longas  </line>
    <line>pela cidade e visitávamos locais culturais. Em paralelo, realizei entrevistas semiestruturadas em  </line>
    <line>número igual com senegaleses e espanhóis no Rio de Janeiro, das quais 68 foram gravadas e trans- </line>
    <line>critas. cerca metade pessoas, múltiplas ao dos da  </line>
    <line>minha pesquisa. Porém, muitos interlocutores, especialmente senegaleses, preferiam participar  </line>
    <line>da minha pesquisa sem serem gravados. Assim, conversas informais e a observação participante  </line>
    <line>complementam narrativas gravadas não) entender vida ao dos  </line>
    <line>interlocutores e sua participação nela. </line>
    <line>Meus senegaleses espanhóis trajetórias vida variadas: ambos </line>
    <line>os havia profissionais, e de lado espectro,</line>
    <line>e trabalhadores manuais, vendedores ambulantes e outros ativos na economia informal, do outro.  </line>
    <line>Alguns senegaleses no Rio de Janeiro eram profissionais altamente qualificados, um pequeno grupo</line>
    <line>era composto por vendedores especializados de artesanato africano, e a maioria eram vendedores  </line>
    <line>independentes óculos sol outros de chinesa. tinham 20 50 </line>
    <line>anos, geralmente mais os qualificados os de Os </line>
    <line>vendedores predominantemente Copacabana no de cidade os </line>
    <line>altamente qualificados habitavam os bairros espalhados de classe média do Rio. Na rotina quotidia- </line>
    <line>na, todos eles atravessavam muito mais bairros da cidade. A maioria dos senegaleses no Rio eram  </line>
    <line>homens e a maioria das duas dezenas de mulheres tinha vindo se juntar aos maridos. Tanto homens  </line>
    <line>como mulheres, mas principalmente vendedores independentes, tanto de artesanato quanto de pro- </line>
    <line>dutos feitos na China, compartilharam parte de seus conhecimentos comigo. </line>
    <line>A a de e espanhóis Brasil no do geral  </line>
    <line>do da após crise europeia 2008 as medidas aus- </line>
    <line>teridade Todos espanhóis encontrei brancos na maioria  </line>
    <line>entre e anos. algumas todos na Sul no em de  </line>
    <line>classe além favelapacificadas processo gentrificação. 2 Apenas alguns culparam  </line>
    <line>abertamente a crise por sua migração, enquanto a maioria simplesmente enquadrou sua mobili- </line>
    <line>dade como uma decisão de vida autônoma. Um pequeno grupo entre eles era de profissionais bem  </line>
    <line>pagos, alguns empreendedores, outros expatriados, que eram um pouco mais velhos, entre o final  </line>
    <line>dos 30 e o início dos 50 anos. Apenas alguns se autoidentificaram como expatriados.  </line>
    <line>2   O da com policiais foi tentativa de as cariocas cidade  - </line>
    <line>mal, violência com formas controle sobre historicamente Como </line>
    <line>resultado, um período menos violento permitiu uma gentrificação dos espaços privilegiados; o processo enfraqueceu com a crise fiscal </line>
    <line>e a volta da violência na segunda metade da década de 2010, deixando ainda mais um legado problemático aos territórios afetados.</line>
  </page>
  <page number="5">
    <line>5 </line>
    <line>Eu havia procurado essa heterogeneidade entre espanhóis e senegaleses para impossibilitar qual - </line>
    <line>quer ribuição a categoria de ou uma migratória  - </line>
    <line>pecífica (Heil, 2020b). Os riscos dessa reificação são iminentes no Brasil, ainda mais ao questionar  </line>
    <line>formas multis </line>
    <line>confluência de migrações forçadas e voluntárias da África e da Europa. Assim, a etnografia contri- </line>
    <line>bui para uma reinterpretação necessariamente distorcida pela mobilidade transnacional e local  </line>
    <line>da constituição histórica da sociedade brasileira. Embora a cidade tenha passado por transforma- </line>
    <line>ções e significativas 2014 2020, múltiplas que seguiram  </line>
    <line>intensificaram experiências causando e reafirmações reava- </line>
    <line>liações. entanto, trocas condensaram um contínuo experiências,  </line>
    <line>quais e estereotipados, como afetivas estéticas,  </line>
    <line>ressignificados nas trajetórias locais e transnacionais dos recém-chegados.</line>
    <line>VISUALIDADES URBANAS </line>
    <line>A granular riqueza da racializadas Rio pouco por </line>
    <line>recém-chegados, uma atenta seus ambíguos das - </line>
    <line>tações Nelas, tanto binarismos beleza e   </line>
    <line>de vida, de um lado, e pobreza e violência extrema, do outro, como também o que se celebra como  </line>
    <line>magia ambiguidades dos diários. tensões explícitas pela </line>
    <line>proximidade asfalto do e distinções da Zona em   </line>
    <line>às Zonas Norte e Oeste da cidade se refratam de forma imprevisível em dinâmicas urbanas de escala </line>
    <line>menor de segurança e desejabilidade que envolvem pessoas e lugares locais. Embora os esforços  </line>
    <line>de do de não de a como característica - </line>
    <line>blemática topografia o o de e habitação permaneceram </line>
    <line>sem resposta efetiva; pois fala-se da negligência e ausência do Estado, da persistência das desigual- </line>
    <line>dades e falta uma futura e 2025; 2023; Larkins, </line>
    <line>2015). efeito Machado-Borges p. ressalta a dos é </line>
    <line>uma prática constante do dia a dia no Brasil: “Essa pessoa é perigosa?” “Deveria evitá-la?”’ Em uma  </line>
    <line>atmosfera afetiva moldada pelo potencial onipresente da violência, interpelações preconceituosas  </line>
    <line>correspondem à sensação de precisar encurralar o Outro, de qualquer forma, para se manter seguro  </line>
    <line>(Machado-Borges, Produções hegemônicas “Cidade Deus” os de </line>
    <line>notícias sobre como Alerta”, esse coletivo a </line>
    <line>sintonia sensorial emergente dos recém-chegados com ele ( </line>
    <line>Em com condição chegada, migrantes muitas somente </line>
    <line>se envolviam em relações parciais em encontros urbanos, respondendo aos sinais que obtinham  </line>
    <line>da paisagem urbana e das pessoas que circulavam nela. Para construir as suas vidas desejadas na  </line>
    <line>cidade, eles sintonizavam com as atmosferas afetivas dos espaços urbanos e as sensibilidades esté- </line>
    <line>ticas coletivas. As atmosferas são “elementos efêmeros, porém inescapáveis, de nossos ambientes  </line>
    <line>experienciais e conceituais do dia a dia” 3  Pink, p. em mudança,   </line>
    <line>tratam como e se como afetam, como que (Bille; </line>
    <line>Simonsen, Gandy, As existem diálogo sensibilidades que </line>
    <line>marcam a sintonia sensorial com a aparência e a sensação dos ambientes urbanos e dos projetos que  </line>
    <line>3    Todas as citações são traduções próprias.</line>
  </page>
  <page number="6">
    <line>6 </line>
    <line>visam uma (desejável) um (Degen; 2024, 1), as   </line>
    <line>culturais hegemônicas e visualidades emblemáticas do Rio de Janeiro. Mais do que uma mera resso- </line>
    <line>nância na experiência dos recém-chegados, seus repertórios sensoriais, embora constituídos por es-</line>
    <line>sas atmosferas e sensibilidades, abraçam a constante mudança, as multiplicidades e as contradições.  </line>
    <line>A de a singular Rio Janeiro as hegemônicas - </line>
    <line>cilitariam o debate sobre a desigualdade urbana ressoou entre a maioria dos meus interlocutores  </line>
    <line>europeus. </line>
    <line>Há essa questão da topografia, que é uma maravilha. Se o Rio de Janeiro não estivesse nessa  </line>
    <line>localização seria merda, tudo que seres fizeram  </line>
    <line>Rio de Janeiro não é mais bonito. [...] Mas, por outro lado, ver a silhueta da Pedra da Gávea,  </line>
    <line>dos Dois Irmãos, da Pedra do Cristo, o verde, os morros que vão para um lado e para outro.  </line>
    <line>Mas a cidade em si, eu sei, também tem muitas coisas bonitas, muitos prédios antigos. Eu  </line>
    <line>costumava por rua Frei [...] rua centro] prédios  </line>
    <line>e casas lindos que estão – caindo aos pedaços (  4 </line>
    <line>Muitos como a deles na Sul, as narrati- </line>
    <line>vas meio qualidades marcantes cidade. acentuavam contrastes  </line>
    <line>entre a natureza exuberante e o vasto espaço construído, a beleza natural e a violência desvelada,  </line>
    <line>a arquitetura modernista e a decadência urbana. O fervor particular de Jordi em seus esforços  </line>
    <line>classificatórios de olhar de Como outros, celebrou  </line>
    <line>as estruturas históricas, além - </line>
    <line>cadência, a falta de planejamento e a estética capitalista particular que não se sintoniza com a pai- </line>
    <line>sagem a ao (cf.  1). rápida de corpos estilos  </line>
    <line>em hierarquias é co-constitutiva dos estereótipos e preconceitos – às vezes até caricaturas – além  </line>
    <line>de provocar Os preconceituosos performativos </line>
    <line>se manifestavam logo nas descrições visuais, devido à hegemonia da visão em detrimento dos ou- </line>
    <line>tros resultado visualismo reificador é do entre  </line>
    <line>corpo e mente (Fabian, 1983, p. 106-107; Ingold, 2000).  </line>
    <line>Imagem 1 – Região portuária com as camadas de construção humana e reflexo do morro, 2016. </line>
    <line>Fonte: autoria própria </line>
    <line>4   Todos os nomes foram alterados.</line>
  </page>
  <page number="7">
    <line>7 </line>
    <line>No entanto, as trajetórias específicas dos meus interlocutores motivaram uma vasta gama de per - </line>
    <line>cepções do ambiente urbano e das pessoas que nela circulam. Clara, uma jovem profissional liberal  </line>
    <line>que havia vivido em vários bairros da cidade menos privilegiados, incluindo a Baixada Fluminense  </line>
    <line>e favelas em processo de gentrificação, afirmou: </line>
    <line>“… há que [a Porque, eu dizia os tam - </line>
    <line>bém muito se Mesmo não [nada], de arrumar.  </line>
    <line>[…] pessoas se muito, sempre limpinhas, — dizer  </line>
    <line>— com roupas impecáveis.” (Clara, 02/2015). </line>
    <line>Minha se contra classificação em seus amigos o  </line>
    <line>seu parceiro apareciam apenas como o lado temido e estigmatizado da cidade, marcado pela cri - </line>
    <line>minalidade violência, e à do Ignorando experiência  </line>
    <line>de vida, seu discurso poderia lembrar o mito da democracia racial 5  2018;  et al.,  </line>
    <line>2022). disso, expressou por vizinhos amigos, o </line>
    <line>eles tiravam proveito do pouco que tinham. A sua desconstrução de um visualismo discriminador  </line>
    <line>estava em harmonia com a própria trajetória local e transnacional. Filha de mãe trabalhadora, ela  </line>
    <line>havia vindo ao Brasil com um parceiro fluminense e juntos sofreram da carência de trabalhos bem  </line>
    <line>pagos, mas se beneficiam de uma rede social inicial desvinculada do hegemônico privilégio branco  </line>
    <line>projetado asfalto zona (Heil, Ela cansava desafiar simplistas  </line>
    <line>Rio e da sua população e assim se beneficiou de um repertório sensorial insurgente. </line>
    <line>Imagem 2 – Estilização de uma situação de venda ambulante de um senegalês </line>
    <line>Fonte: elaboração própria </line>
    <line>5   A expressão democracia racial se refere a um conjunto de representações sobre a sociedade brasileira, nascido no campo acadêmi - </line>
    <line>co na primeira metade do século XX e incorporado pela política pública e pelo senso comum. A suposta existência de uma demo- </line>
    <line>cracia cedeu ao da da segregação violência raciais interseccionais.  </line>
    <line>Reconhece-se meramente o ‘mito da democracia racial’, produto de um projeto de nação racialista beneficiando uma elite pequena  </line>
    <line>(Portela Júnior; Lira, 2022).</line>
  </page>
  <page number="8">
    <line>8 </line>
    <line>Sentado em 2014 no centro da cidade com Salloum, um vendedor ambulante senegalês (cf.  Imagem  </line>
    <line>2), ele, sem querer, fez a sua própria crítica à racialização hegemônica. Tocou no cerne das contes - </line>
    <line>tações ao racismo e ao sexismo no Brasil (Gonzalez, 2018; Silva, 2006) ao fornecer um atalho para  </line>
    <line>a diferença racial. Com vista para a rua, ele classificava as brasileiras com trajes de negócios como  </line>
    <line>brancas, enquanto as mulheres de shorts e tops como pretas. Discutindo com senegaleses como  </line>
    <line>enxergar a população brasileira, frequentemente nos deparávamos com a persistência de um bi- </line>
    <line>narismo racial. a brasileira enraizada no  </line>
    <line>o mesmo se tornava profundamente ambivalente. Jovens senegaleses compartilharam narrativas  </line>
    <line>sobre suposta sexual às brasileiras, viam jovens  </line>
    <line>demais ou encontravam para namorar – um tema que raramente admitiam abertamente. De um  </line>
    <line>lado, o seu estilo de se vestir e a residência nas favelas resultavam numa acusação de decadência  </line>
    <line>moral parte meus Por lado, abraçaram dificuldades me- </line>
    <line>ninas como consequência da falta de cuidado e proteção familiares, pelas quais enfaticamente  </line>
    <line>culpavam chefes família que homens. à experiência  </line>
    <line>onipresença privilégio a do binarismo sentido os  </line>
    <line>interlocutores uma onde diferença, vezes imperceptível, o de  </line>
    <line>bronzeado a mestiça firmemente (Pravaz, apesar esforços  </line>
    <line>contínuos de desestabilização (Roth-Gordon; Larkins, 2025). Os senegaleses compartilhavam uma  </line>
    <line>leitura um colonial no a é em públicos racia- </line>
    <line>lizada a partir da sua aparência e de noções de beleza, bom gosto e higiene pessoal (Edmonds,  </line>
    <line>2010; Jarrin, 2015; Machado-Borges, 2014).  </line>
    <line>Nem essa passou ser Apesar contínua das  </line>
    <line>negras, a seguinte afirmação de um senhor senegalês é notável pelas múltiplas camadas evocadas  </line>
    <line>e pelas provocações dirigidas a mim: </line>
    <line>Olha eu que é falsa Nós de país o de - </line>
    <line>ro quente, quarenta É da onde galera normal. é  </line>
    <line>quente, a galera se veste pouco, a mulher misturada lá, aquela morena. Elas são bonitas,  </line>
    <line>bunda grande, seios. Tem que mostrar mesmo. E qual é o problema? Agora, isso não quer  </line>
    <line>dizer está prostituição, isso tem a Tem do Tá  </line>
    <line>liberado, direitos, É a não me A carioca a  </line>
    <line>mais bonita do mundo e vocês europeus sabem disso, pois saem de lá para passar as férias  </line>
    <line>aqui. Não se censura isso, tem que deixar viver, tem que ser feliz (Hamidou, 02/2015). </line>
    <line>-</line>
    <line>sil, empoderou a mulher brasileira, destacando a sua presença sensorial na sociedade. Embora  </line>
    <line>a provocação permanecesse inscrita nas ambivalências afetivas da racialização e sexualização  </line>
    <line>das mulheres brasileiras, a performance de Hamidou mostrou o seu reconhecimento e a cele- </line>
    <line>cf. </line>
    <line>- </line>
    <line>racializadas e sexualizadas pelo afeto dos recém-chegados, tornando-se evidente nesses exem- </line>
    <line>compreendidos se considerarmos como eles passaram pelos corpos dos meus interlocutores e  </line>
    <line>foram evocados nas relações.</line>
  </page>
</document>
