O amor e o abuso em “Ponciá Vicêncio”
de Conceição Evaristo (2017)

Renata Araújo Matos*1

Resumo:
O amor é um tema continuamente exaltado em nossas relações sociais. Entretanto, as experiências amorosas figuram o principal espaço de
ocorrência da violência contra as mulheres. Em vista disso, o presen-
te trabalho procura compreender como a construção social do amor
se conecta à manutenção do relacionamento abusivo na obra literária “Ponciá Vicêncio”, de Conceição Evaristo (2017). Pudemos verificar
que a atribuição de papéis sociais às mulheres e aos homens, no seio da
dominação masculina operante no patriarcado, atua na continuidade
de relações abusivas, em que a ideia de cuidado como campo inerente
ao feminino é fortemente evocada. Desse modo, conclui-se que o amor romântico incorpora os códigos característicos do sistema de domina-ção patriarcal e, concomitantemente, influi na reprodução do mesmo.
Palavras-chave: Amor. Cuidado. Sistema patriarcal. Ponciá Vicêncio.

* Doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB). E-mail: rearaujomatos@
gmail.com.

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Love and abuse in “Ponciá Vicêncio” by Conceição
Evaristo (2017)

Abstract:
Love is a continually exalted theme in our social relationships. Howe-ver, love experiences are the main space where violence against wo-
men occurs. In view of this, the present work seeks to understand how
the social construction of love is connected to the maintenance of the
abusive relationship in the literary work “Ponciá Vicêncio”, by Concei-
ção Evaristo (2017). We were able to verify that the attribution of so-cial roles to women and men, within the male domination operating in
the patriarchy, acts in the continuity of abusive relationships, in which the idea of care as a field inherent to the feminine is strongly evoked.
Thus, it is concluded that romantic love incorporates the characteristic
codes of the patriarchal domination system and, at the same time, in-fluences its reproduction.
Keywords: Love. Caution. Patriarchal system. Ponciá Vicêncio.

Amor y abuso em “Ponciá Vicencio” de Conceição
Evaristo (2017)

Resumen:
El amor es un tema continuamente exaltado en nuestras relaciones so-ciales. Sin embargo, las experiencias amorosas son el principal espacio
donde se produce la violencia contra las mujeres. Frente a eso, el presen-
te trabajo busca comprender cómo la construcción social del amor está
conectada al mantenimiento de la relación abusiva en la obra literaria
“Ponciá Vicêncio”, de Conceição Evaristo (2017). Pudimos constatar que
la atribución de roles sociales a mujeres y hombres, dentro de la domi-
nación masculina que opera en el patriarcado, actúa en la continuidad de
relaciones abusivas, en el que se evoca fuertemente la idea del cuidado como campo inherente a lo femenino. Así, se concluye que el amor ro-mántico incorpora los códigos característicos del sistema de dominaci-ón patriarcal y, concomitantemente, influye en su reproducción.
Palabras clave: Amor. Cuidado. Sistema patriarcal. Ponciá Vicêncio.

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IntroduçãoO presente artigo analisa como a construção social do amor de-
senvolve práticas de amar condizentes com a manutenção de re-lacionamentos abusivos. As reflexões aqui apresentadas advêm
da pesquisa de doutorado por mim desenvolvida e que resultou
na Tese “O amor e o amar: uma análise comparada dos relacio-namentos abusivos em “El albergue de las mujeres tristes”, de
Marcela Serrano, e “Ponciá Vicêncio”, de Conceição Evaristo”. Para os propósitos específicos deste trabalho refletiremos ape-
nas sobre Ponciá Vicêncio (Evaristo, 2017).

O amor é um tema fortemente presente em nossas relações sociais.
Túlio Cunha Rossi (2014) explica que embora saibamos que existem
diferentes tipos de amor, sabemos exatamente que aquele constante-
mente evocado na literatura, no cinema e na música trata-se do que
expressa relações afetivo-sexual. Isso porque, o amor, enquanto ca-tegoria social, é um produto da vida social, que é vivido e sentido de
modo individual e subjetivo. Em outras palavras, os afetos, em que
se incluem o amor, são expressões culturais e sociais, o que também não os descaracterizam como entidades psicológicas (Illouz, 2011).
O abuso é aqui entendido enquanto conjunto de violências norma-
lizadas no interior de determinados relacionamentos amorosos,
estando, assim, intrinsecamente associado às perspectivas sociais
acerca do amor. Os relacionamentos amorosos são os principais espaços para concretização da violência de gênero, caracterizada pela dominação masculina (Bourdieu, 2011b) típica do patriarcado (Lerner, 2019). De acordo com Heleieth Saffioti, mesmo quando a violência de gênero é praticada em situações desenvolvidas entre
dois homens ou duas mulheres, continuaremos diante da represen-tação da coação do homem contra a mulher (Saffioti, 2004).
No Brasil, uma a cada quatro mulheres, acima de 16 anos, sofreu algum tipo de agressão em 2020, o que significa que cerca de 17 milhões de mulheres já passaram por alguma experiência de

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violência física, psicológica ou sexual. Além disso, no mesmo pe-ríodo, cinco em cada dez brasileiros relatam ter visto uma mu-
lher sofrer violência (DataFolha/FBSP, 2021).

O cenário pandêmico acentuou a prática de violência contra as
mulheres. Isso, em consequência da maior convivência do casal
no ambiente doméstico, da diminuição da renda familiar, da esco-larização remota dos filhos, do aumento do estresse, entre outros fatores (DataFolha/FBSP, 2021). Sem embargo, devemos enfati-zar que as circunstâncias criadas especificamentes pelo cenário
de “Covid-19, se suman las condiciones estructurales de la violen-
cia contra mujeres, principalmente relativas a violencia femicida,
falta de acceso a la justicia y la violencia ejercida directamente por agentes del Estado, sobre todo en contextos de movilización
social” (Red Chilena contra la Violencia hacia las Mujeres, 2021, p. 5). Estima-se que 4.640 mulheres foram vítimas de feminicí-
dio na América Latina e Caribe no ano de 20191. Valendo lembrar que a tipificação do feminicídio, ou agravamento do homicídio por questões de gênero, não é sancionada em todos os países.No Brasil, o reconhecimento oficial da violência contra a mulher ocorreu por meio da Lei 11.340, de 2006, que protege as mulhe-res contra a violência física, psicológica, patrimonial ou moral.
Mais conhecida como Lei Maria da Penha, a norma faz referência à mulher que sofreu duas tentativas de feminicídio, por parte do ex-marido, e ficou paraplégica2. A admissão legal do feminicídio
veio em 2015, com a Lei 13.014 e entende que:

1 Disponível em: https://www.cepal.org/pt-br/comunicados/cepal-preocupa-persistencia--violencia-mulheres-meninas-regiao-sua-maxima-expressao-o. Acesso em mai. 2022.
2 “A Lei Maria da Penha foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas como uma das melhores legislações do mundo no combate à violência contra as mulheres. No entanto, é
preciso salientar o quão recente é essa lei, que apenas em 2006 o Estado brasileiro deixou de
ser omisso quanto à violência contra a mulher, depois de ter sido condenado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, em 2001, a criar uma legislação nesse sentido.
A condenação veio em decorrência da história da Maria da Penha Maia Fernandes que, por duas vezes, quase foi assassinada e, por diversas vezes, agredida por seu marido sem uma conclusão de um processo penal de punição ao seu agressor” (Sousa, 2019, p. 10).

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quando o homicídio de mulher acontece por “razões de
condição de sexo feminino”, deverá ser considerado crime
hediondo, por atentar contra os valores basilares da socie-
dade, pelo que deve merecer maior reprovação por parte do
Estado. A mesma lei considera que existem razões de con-
dição de sexo feminino quando o crime envolve: I. Violên-
cia doméstica e familiar; II. Menosprezo ou discriminação à condição de mulher (Waiselfisz, 2015, p. 67).

As ideias que temos a respeito do amor e o modo que experien-
ciamos o amar são resultados das sociedades em que vivemos. Conforme será discutido ao longo deste trabalho, somos sociali-zadas sob a égide de sistemas pautados pelas desigualdades de gênero, de raça, classe, orientação sexual e de vários outros mar-
cadores sociais. Outrossim, as mulheres são incentivadas, desde
muito novas, a construir expectativas de realização do amor por
meio do desempenho da nossa capacidade de cuidar, seja dos filhos e/ou do companheiro/a, seja do relacionamento amoroso. A falha no desenrolar dessa função social pode gerar frustração e necessidade de autocorreção, justificando, em muitos casos, a
permanência em relações abusivas.

Ponciá Vicêncio foi escrito por Conceição Evaristo e publicado
pela primeira vez em 2003. A autora nasceu em Belo Horizonte, em 1946, e migrou para o Rio de Janeiro, em 1970. É filha da lavadeira Joana Josefina Evaristo, não sabe muito sobre o pai e foi criada pelo padrasto, o pedreiro Aníbal Vitorino. Evaristo se graduou em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro no ano de 1990, obteve o título de mestra em Literatura Brasilei-ra pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e con-cluiu o doutorado em Literatura Comparada pela Universidade
Federal Fluminense em 2011. Sua estreia na literatura ocorreu,
no ano de 1990, com a publicação de seus contos e poemas na série Cadernos Negros. A vivência da autora enquanto mulher negra, que teve a infância marcada pela pobreza material, é re-fletida nas histórias das diversas mulheres negras que protago-
nizam suas narrativas.

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Para a análise literária dentro do campo das ciências sociais, se-guimos os postulados de Antônio Candido (2019), para quem
a literatura é uma expressão da sociedade. Por mais óbvia que seja essa afirmação na atualidade, nem sempre ela teve aceita-ção, estando muitas vezes desequilibrada na consideração uní-voca dos aspectos extrínsecos ou intrínsecos à construção do
texto literário. Nesse sentido, o autor compreende que o estudo
de uma obra requer o exame tanto dos fatores externos quanto dos internos, indo ao encontro de uma análise integral que não consinta em visões dissociadas. É necessário:

fundir texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava
pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela con-
vicção de que a estrutura é virtualmente independente, se
combinam como momento necessários do processo inter-
pretativo. Sabemos, ainda, que o externo (no caso, o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como
elemento que desempenha um certo papel na constitui-
ção da estrutura, tornando-se, portanto, interno (Candido,
2019, p. 13-14).Segundo o autor, na realização da análise literária, a sociologia

é uma disciplina auxiliar, não sendo de seu alcance explicar o fenômeno literário ou artístico, mas esclarecer apenas algumas
de suas particularidades. Trata-se de ponderar o entrelaçamen-
to dos diversos fatores sociais que compõem a literatura, sem, no entanto, determinar que tais características são os elementos
essenciais de dada obra (Candido, 2019). Ao refletir como o meio social atua efetivamente sobre as obras li-
terárias, Candido traz duas respostas tradicionais para a questão.
A primeira estuda em que medida a arte é expressão da socieda-de; enquanto a segunda investiga em que medida é social, ou seja,
interessada nos impasses sociais. A sua posição é de que as duas
correntes mostram que a arte é social, pois “depende da ação de fatores do meio, que se exprimem na obra em graus diversos de

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sublimação e produz sobre os indivíduos um efeito prático, modi-ficando a sua conduta e concepção do mundo, ou reforçando neles
o sentimento dos valores sociais” (Candido, 2019, p. 30). De acordo com Eloísa Pereira Barroso (2017), a literatura parte
de uma realidade material concreta que se expressa no texto. A identificação desses elementos possibilita sistematizar os com-ponentes sociais que organizam a experiência humana e assim
“determinar” os fatores culturais presentes na obra. “A literatura ao comportar uma dimensão de verdade torna-se um registro de
acontecimentos, não que isso seja tarefa sua, mas essa correla-
ção com a realidade mantém um compromisso do texto literário
com o real, dando credibilidade ao relato” (Barroso, 2017, p. 59).Feito os devidos esclarecimentos, seguiremos para uma breve ex-posição da abordagem teórica sobre o amor e, na sequência, para
a análise da vivência do amor em Ponciá Vicêncio (Evaristo, 2017).

1. Sobre o amor

Para compreendermos a constituição social dos discursos sobre
o amor e os formatos imperantes da prática de amar no mundo
ocidental é necessária uma breve incursão ao tratamento dado à
temática no âmbito das ciências sociais. Denis de Rougemont (1988) analisou a história do amor no Oci-
dente por meio da lenda de Tristão e Isolda. Além de esclare-cer as influências orientais que predominam sobre o ideário de
amor ocidental, ele enfaticamente destaca a representação de
amor como sofrimento. O renascimento cultural de Eros é classificado, por Rougemont, como marca do início do amor paixão no século XII. A poesia
europeia advém dos versos dos trovadores naquele século. Suas líricas exaltam o amor infeliz que se encontra à margem do ca-

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samento e que se realiza enquanto manifestação da união lumi-
nosa da alma e não mediante a concretização sexual. As leis do subsequente amor cortês pregam a retenção. Isso se relaciona com a origem maniqueísta e herética da condenação da carne presente no cristianismo. Igualmente expressa o lugar sagrado que a mulher ocupa nessas relações. Algumas das características da cortesia estão situadas na busca da humildade, lealdade, fide-lidade e respeito à dama e se ligam diretamente com a recusa do contato físico (Rougemont, 1988). Em síntese, para Rougemont (1988), a função social do mito sa-grado do amor cortês era a de ordenar as forças das paixões. Den-tro desse cenário, havia a presença oculta de uma mística trans-cendente, de origem oriental, como ponto de direção. Após perder o caráter esotérico e sagrado, o mito foi convertido em literatura. O Romantismo, do final do século XVIII, apega-se ao que sobrou dos ritos e promove demasiada glorificação de tudo aquilo que estava contido no mito original de Tristão e em outras histórias literárias que o sucederam. Desse modo, durante o século XIX, o instinto de morte inconscientemente reprimido ou especifica-
mente concentrado pela arte aristocrática, como no século ante-
rior, espalhou-se na consciência profana. E quando, sob o impacto de causas totalmente diversas, as antigas estruturas da sociedade
desmoronaram, o conteúdo do mito inundou a vida quotidiana.Josefina Pimenta Lobato (1997) esclarece que as interpretações sobre o amor romântico seguiram dois sentidos, o do particu-
larismo e o do universalismo. O primeiro diz respeito à ideia
de que o amor romântico, enquanto atração erótica, entendida como algo mais refinado e não resumido em desejo sexual, con-siderada por nós como amorosa, é algo próprio do mundo oci-dental. Já o segundo aponta para a ideia de que o amor românti-co é um fenômeno universal.
Lobato apresenta os conceitos de amor disciplinado e de amor
domesticado como caminhos interpretativos para a resolução

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do embate entre particularismo e universalismo (Lobato, 1997).
São recorrentes nos estudos sobre o amor o uso das terminolo-gias disciplina e domesticação para explicar os diferentes tipos de manifestação desse sentimento; e o de selvageria para tratar
dos aspectos passionais que devem ser disciplinados ou domes-
ticados. Porém, tal utilização normalmente objetiva indicar as características paradoxais do amor, em alguns momentos liga-
das à natureza, em outros à cultura. Lobato (1997) esclarece que
as referidas noções não abarcam suas proposições.As sociedades holistas têm como característica a prevalên-cia do social sobre os indivíduos. Essa colocação indica que a selvageria inerente ao amor passional é disciplinada. Já as
sociedades orientadas por valores individualistas, nas quais os indivíduos constituem a realidade primeira e a sociedade é
apenas um meio de satisfazer suas necessidades e demandas, a selvageria passional do amor, pensada não como descontro-lada, ou seja, como passível de ser contida, mas como incon-trolável, é, bem ao contrário, glorificada e tida como uma expe-
riência emocional desejável e enobrecedora (Lobato, 1997, p.
142). Nesse sentido, seus amores são domesticados. A autora explica que domesticar nesse caso não significa amansar, mas
usar o amor em sua imprevisibilidade incontrolável como meio de alcance de relações amorosas gratificantes. O amor-paixão e o amor romântico exemplificam a domesticação do amor. Em suma, a domesticação emprega a paixão à serviço da ordem
social. A lenda de Tristão e Isolda marca, na sociedade ocidental, o iní-
cio da transição do amor disciplinado para o amor domesticado. Pois, na narrativa, há uma certa fuga das tradições, o que não se dá de maneira completa. Já na história de Romeu e Julieta, Loba-
to (1997) sublinha que podemos ver diretamente a domestica-
ção do amor. Viveiros de Castro e Benzaquem de Araújo (1977) pontuam que os personagens principais rompem o ciclo familiar
para o encontro do par amoroso. Todavia, fortalecem o poder

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do príncipe, ao qual não ousam desobedecer. Desse modo, há, desde então, o indivíduo e o Estado.
Sobre o individualismo, Lobato (1997) destaca que a ideia da paixão, como requisito para o casamento, foi algo outorgado aos enamorados para que ignorassem as regras e as convenções que os impediam de ficar juntos. Tal crença é peculiar do amor do-
mesticado que se expressa por meio do amor romântico e que só
pode ter sucesso no universo individualista.

As questões tratadas por Lobato (1997) nos fazem voltar à discus-
são presente desde as primeiras formulações das ciências sociais, a que diz respeito à dicotomia estrutura e ação/sociedade e indiví-
duo. Compreender até que ponto a sociedade nos molda e em que medida agimos sobre ela são questões que até hoje intrigam nossas mentes. Segundo Nildo Viana (1999), as ciências sociais possuem dois princípios metodológicos que se opõem, o holismo metodo-lógico corrente de Durkheim, Mauss, Malinowski, Radcliffe-Brown
e Lévi-Strauss, postulando a predominância da sociedade sobre o sujeito. E o individualismo metodológico representado por Smith, Simmel, Weber, Maffesoli, Pareto, entre outros, que segue o cami-nho da primazia das ações do indivíduo sobre as estruturas sociais. Pierre Bourdieu busca resolver o problema da dicotomia indiví-
duo e sociedade. Nesse sentido, ele desenvolve o conceito de ha-
bitus
que representa a interiorização da exterioridade e a exte-riorização da interioridade (Bourdieu, 2011). Isso significa que
interiorizamos o mundo social ao qual nos encontramos e exte-
riorizamos a partir de nossas disposições subjetivas, por meio de gostos, valores, sensibilidade, entre outros. O desenvolvimen-
to da socialização é iniciado desde o nosso nascimento, quando
temos contato com os primeiros ensinamentos e passamos pelo processo de primeira educação ou de ação pedagógica primária nos termos de Bourdieu e Passeron. É nesse decurso que forma-
mos parte substancial de nosso habitus, que fortemente condu-
zirá nossas futuras ações (Bourdieu; Passeron, 1975).

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De acordo com Maria Chaves Jardim (2020), o conceito de ha-
bitus
envolve os fundamentos de sociação e de individuação.
Assim, “O habitus funcionaria como uma espécie de gramática cultural para a ação, profundamente estruturada” (Jardim, 2020, p. 10). O que indica que o agente traz em seu corpo a memória social que reflete seu lugar no mundo. Nesses termos, a autora destaca que “É exatamente por isso que Bourdieu afirma que o
habitus é INcorporado (colocado no corpo) e também na mente, a partir da experiência do agente social; por isso, para Bourdieu, o corpo carrega uma história, uma biografia, ao mesmo tempo individual e coletiva” (Jardim, 2020, p. 11). O amor passaria por
essa INcorporação via habitus.Jurandir Freire Costa (1988) defende que o amor é uma cren-
ça emocional e assim como qualquer outra pode ser mantida, alterada ou extinguida. Sendo o romantismo amoroso uma das
marcas culturais do Ocidente. De acordo com o autor, existem três afirmações básicas que atuam na manutenção da crença
amorosa, a primeira indica o amor como sentimento universal
e natural, vivido em todas as culturas e em todos os momentos históricos; a segunda mostra o amor como surdo à voz da razão e irrefreado pela nossa vontade; por fim, a terceira afirmação
apresenta o amor enquanto condição para a máxima felicidade
que podemos alcançar. O amor é considerado o atributo essen-
cial da felicidade. Dessa forma, o fracasso no amor produz a cul-pabilização dos indivíduos. Dentro dos estudos sobre o amor romântico, existem, segundo Costa (1998), duas correntes principais, sendo elas a dos ide-
alistas e a dos realistas. Na primeira, como o próprio nome in-dica, há a idealização do amor e a crítica ao esvaziamento que
ele vem sofrendo na atualidade. Enquanto para os realistas, em linhas gerais, a passionalidade característica do amor romântico é o seu grande ponto fraco. Costa (1998) entende que as ver-
dades sobre o amor são múltiplas. Nós escolhemos aquelas que
representam os valores que desejamos para as nossas vidas. Os

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idealistas subestimam as razões do amor e recaem na crença,
enquanto os realistas subestimam as paixões do amor e recaem nos julgamentos (Costa, 1998).Zygmunt Bauman, um dos idealistas, entende que no mundo
contemporâneo, altamente individualizado, os relacionamentos
amorosos vacilam entre o sonho e o pesadelo. O padrão do amor
é cada vez mais rebaixado (Bauman, 2004). Para ele, o amor, as-sim como a morte, não pode ser aprendido, por isso ele dirige dura crítica aos “manuais” que propõe de um jeito rápido e sem
esforços ensinar como se amar. Ele se refere ao Eros da moder-nidade líquida como aquele que podemos ver por todos os lu-gares, mas que não reside em local algum. Em sua concepção, o
amor é vivenciado como o uso de qualquer outra mercadoria. Ao encontro de qualquer dificuldade, é descartado e o preparo para
o consumo de um novo relacionamento é iniciado. Guiado pela lógica do consumo, os investimentos nas relações são equipara-dos àqueles realizados no mercado financeiro (Bauman, 2004).
Rossi (2014) destaca, com base no seu referencial teórico, que a idealização romântica tem como fundamento a visão degradan-
te do presente a partir da ideia de enaltecimento do passado.
Essa colocação nos permite inferir que é visto no passado um
tipo de vivência amorosa não condizente com a realidade con-creta. Afinal, esses supostos amores felizes parecem ser muito mais exceções do que uma realidade generalizada, pois, confor-
me defendemos, a construção social do amor abarca os elemen-
tos dominantes da sociedade. Em vista disso, aspectos centrais
do sistema patriarcal e, consequentemente, da dominação mas-
culina moldam os modelos sociais em que o amar é praticado. E
isso não é uma novidade da nossa época. Giddens destaca que o amor romântico influenciou de manei-ra distinta homens e mulheres. Para aqueles houve conflitos de identidades pautadas no jogo de sedução. Os homens domina-
vam as habilidades do amor apenas em termos técnicos, porque

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na prática o acesso à virtuosa mulher amada era quase inviável. No século XIX, por meio dos discursos que buscavam conhecer
as mulheres, elas se tornaram ainda mais “misteriosas”. Os ho-mens não souberam conduzir a reflexão acerca das transforma-
ções emocionais ocorridas na sociedade e, consequentemente,
na intimidade das relações amorosas. De modo inconsciente,
buscaram respostas nas próprias mulheres, e, assim, não per-
ceberam que sua identidade disfarçadamente foi tecida pela
dependência. Conforme Giddens (1993), o amor romântico é dependente da identificação projetiva presente no amor paixão,
sendo essa a maneira pela qual os prováveis parceiros se sintam atraídos e posteriormente completem a união. No entanto, o autor argumenta que a relação construída por tal processo produz inicialmente a sensação de totalidade gerada pela projeção, mas que em seu seguimento não se sustentará,
pois o ato de projetar vai contra a intimidade necessária para a continuidade do relacionamento. O contrário da identificação projetiva é a abertura íntima de um enamorado para o outro,
sendo aquela uma condição para o que o autor chama de amor confluente: “o amor confluente é um amor ativo, contingente, e por isso entra em choque com as categorias “para sempre” e
“único” da ideia do amor romântico” (Giddens, 1993, p. 73).

Diversamente a outros autores discutidos neste trabalho, Gi-ddens (1993) não vê as separações e os divórcios como algo completamente negativo, mas como a emersão do amor con-fluente. As mudanças ocorridas nas chamadas sociedades da
separação e do divórcio expressam, ao contrário de destruição e isolamento da família nuclear, como muitos dizem, novos laços de parentesco que conduzem à formação de famílias re-
combinadas. Concordo com Giddens quanto às mudanças ob-
servadas nos relacionamentos amorosos na atualidade. Porém,
divirjo quanto à perspectiva que sinaliza que o amor român-
tico, enquanto sistema norteador das formas de amar, tenha chegado ao fim.

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A invenção do ideal do amor romântico coincide com o surgimento
da experiência subjetiva interiorizada (Iannini; Tavares apud Freud, 2019). Relembremos, agora, que o século XIX foi palco da produção
de uma série de discursos sobre as mulheres e é exatamente nesse
cenário que a obra de Freud começa a ser desenvolvida. Buscan-do compreender o amor, o fundador da psicanálise elenca algumas
condições que acredita estarem presentes na escolha amorosa dos
homens. A primeira diz respeito à condição do terceiro prejudicado e aponta que, no lugar de uma mulher sozinha e livre, o homem
escolherá aquela sob a qual outro homem reivindica direito de pro-priedade, seja como marido ou prometido, seja como amigo. Tal im-
perativo aparece como motivação para a rivalidade e a hostilidade em relação a outro homem. A libertinagem da mulher representa a segunda condição e se liga com a construção do ciúme, provocando
sensações intensas em quem o experimenta. A terceira, por sua vez,
trata do desejo de salvamento da mulher e se desenrola em decor-rência das duas precedentes, gerando no homem a expectativa de
orientar a mulher para o caminho da virtude (Freud, 2019). Freud trata do processo de castração que, segundo ele, é iniciado
na visão do sexo oposto. No entanto, no menino isso produzirá o sentimento de que seu órgão não é apenas um complemento
do corpo. Enquanto na menina, a visão irá introduzir a sensação
de incompletude que levará à inveja do pênis que será vencida “sem um extremo dispêndio psíquico” (Freud, 2019, p. 329). De
modo sintético, pode-se dizer que a menina só resolve a questão quando o desejo do pênis é substituído pelo desejo do filho do pai, que marca sua entrada real no complexo de Édipo, sendo
aqui também que a mãe se torna sua rival por ter do pai aquilo
que deseja. No menino, esse processo se desenvolve de maneira simples, pois ele não precisa modificar seu objeto de desejo que é, desde o início, a mãe. Assim, o autor conclui que a descoberta
pela menina de sua própria castração é o marco em seu desen-
volvimento e conduz a três processos distintos, sendo eles a ini-
bição sexual ou a neurose, o desenvolvimento do complexo de
masculinidade e a feminilidade normal.

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Sem negar as ambiguidades do discurso de Freud sobre a femi-nilidade, Joel Birman (2016) busca aprofundar sua obra. Para o
autor, uma contradição evidente sobre a construção da ideia de
feminilidade se encontra na atribuição do papel da mulher na obra civilizatória que muda de acordo com a qualificação enun-
ciada. Quando a maternidade é evocada, as mulheres represen-
tam o desempenho do trabalho árduo para a concretização do
projeto civilizatório. Porém, à medida que são percebidas pela ótica do desejo e do erotismo são subjugadas como obstáculos
insuperáveis para a constituição da civilização. E é exatamente
na consideração dessa suposta oposição no ser da mulher, entre
maternidade e erotismo, que a interpretação de Freud se cen-
tra (Birman, 2016). Além do mais, a já tratada inveja do pênis caracterizaria o motor principal no funcionamento psíquico das
mulheres (Birman, 2016). Indagando sobre os postulados psicanalíticos acerca da consti-
tuição da sexualidade, Giddens (1993) analisa que, ao contrá-
rio do que é colocado por Freud, sobre a inveja da menina em
relação ao pênis, o que é visto na prática, tanto por ela quanto
pelo menino, é o encontro de uma mãe que nada tem a ver com o indivíduo castrado e impotente. Nos primeiros anos de vida, sobretudo no nível inconsciente, tem-se uma imagem de uma
mãe todo-poderosa: “Então, um sentido inicial de autoidenti-
dade, juntamente com o potencial para a intimidade, é antes de tudo desenvolvido pela identificação com uma figura feminina
universalmente importante” (Giddens, 1993, p. 129). Em dado momento, todas as crianças devem se afastar da influência da
mãe. O autor defende que a possibilidade de desvio se encon-
tra muito mais no percurso para a masculinidade, do que para a feminilidade. Assim sendo, a origem da autoidentidade mascu-
lina está associada às profundas sensações de vulnerabilidade e
perda que permeiam as lembranças inconscientes dos homens.
Enquanto as meninas têm mais acesso à comunicação como meio para a autonomia emocional. Seguindo a linha analítica de Giddens, é possível dizer que a velada carência emocional dos

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homens pode se ligar a comportamentos de raiva e violência (Gi-
ddens, 1993). De um lado, temos o ocultamento da sexualidade
das mulheres, do outro temos a dissimulação dos traumas dos
homens. Segundo Bourdieu (2011b), os sistemas de dominação fazem parecer que as diferenças biológicas fundamentam as distinções
sociais. Defendemos que a socialização das mulheres para o cui-
dado, que claramente perpassa o ideário da maternidade, é um
dos fatores principais, se não o mais importante, na construção e na manutenção dos relacionamentos abusivos. Jardim (2020)
destaca a aproximação de Bourdieu à psicanálise por meio do
conceito de illusio, noção que permite captar a ação do agente nos jogos sociais estabelecidos. Não obstante, esses jogos não são ne-
cessariamente percebidos de modo consciente por aqueles que
deles participam. Trazemos em nós o passado incorporado que
não somente se apresenta obscuramente à consciência, como permite entendermos as práticas sociais. Diante dessa afirmação, ela esclarece que o citado autor possibilita enxergarmos o caráter histórico e social do inconsciente e, portanto, mutável. Diz Jardim (2020, p. 18): “é a conformação da história subjetiva (individual) e história coletiva (estrutura), passível de transformação, via ha-
bitus
e via revoluções simbólicas”.Bourdieu (2011b) nos fala que o poder simbólico age direta-
mente sobre os corpos, sem necessariamente apresentar violên-cia física, mas como algo que se instala nas zonas mais profun-
das do nosso ser (Bourdieu, 2011b). Lembrando que para esse
pensador, o corpo, mesmo sendo único e subjetivo, também é um produto coletivo que reflete o espaço do agente na sociedade (Jardim, 2020).
As propostas de práticas modeladoras dos corpos e, consequen-temente, das vidas estão destinadas a todos os indivíduos, mas
em nossa sociedade recaem com maior peso sobre as mulheres.
Conforme Novaes, desde muito tempo o corpo feminino é pen-

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sado sob uma ótica falocêntrica que o percebia como incomple-to em relação ao corpo do homem. Tal insuficiência poderia ser
suprimida pelo poder da maternidade que deve distanciá-la do erotismo, pecado originário da mulher (Novaes, 2011). Assim,
o amor, para a mulher, é posto não como um sentimento, mas como um anseio de vida (Jung, 2005).
Compreendemos o abuso como a violência normalizada dentro
dos relacionamentos afetivo-sexuais, sendo, ao mesmo tempo, constituinte e constituído pelo ideário amoroso. Assim, a práti-
ca abusiva, embora não seja necessariamente captada, é um dos
elementos centrais da união. Heleieth Saffioti (2004) esclarece que a violência é popularmen-te definida como aquilo que rompe a integridade de um indiví-duo, independentemente de ser sentida de maneira física, psí-
quica, sexual ou moral, não estando exatamente localizada na
esfera do palpável. No entanto, a autora considera essa acepção
falha no sentido de que:

cada mulher colocará o limite em um ponto distinto do
continuum entre agressão e direito dos homens sobre as
mulheres. Mais do que isto, a mera existência desta tenui-
dade representa violência. Embora se trate de mecanismo
de ordem social, cada mulher o interpretará o que é violên-cia singularmente. Desse modo, a ruptura de integridades
como critério de avaliação de um ato como violento situa-se no terreno da individualidade (Saffioti, 2004, p. 75).

A noção de integridade física é insuficiente porque os limites da ruptura são individuais. Sendo assim, Saffioti (2004) entende a violência como qualquer agenciamento capaz de violar os direi-tos humanos. Essa definição é de suma importância, pois forne-ce significação totalmente pautada no social, permitindo que a agressão seja identificada não apenas por aqueles que se encon-tram envolvidos no jogo do abuso.

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Ainda em consonância com o pensamento de Saffioti, afirmamos que os efeitos das agressões psíquicas e morais são intangíveis, o que leva a maior dificuldade de reconhecimento. Nada obstan-te, “Feridas do corpo podem ser tratadas com êxito num grande número de casos. Feridas da alma podem, igualmente, ser trata-
das. Todavia, as probabilidades de sucesso, em termos de cura, são muito reduzidas e, em grande parte dos casos, não se ob-tém nenhum êxito” (Saffioti, 2004, p. 19). Em todos os formatos possíveis em que a agressão ocorra, a violência emocional está presente (Saffioti, 2004). A violência de gênero é o grande recurso que garante a existên-
cia do patriarcado. Parto da ideia de que o abuso é mantido em
detrimento do dever de cuidar incumbido às mulheres. A refe-rida atribuição foi sofisticada com os códigos da modernidade, porém é atuante em todo o sistema patriarcal. Segundo Gerda
Lerner (2019, p. 29), “o patriarcado é uma criação histórica for-
mada por homens e mulheres em um processo que levou quase 2.500 anos até ser concluído”. Nesses termos, a subordinação das mulheres é mais antiga do que a chamada civilização. É im-prescindível considerarmos que:

Embora as mulheres venham sendo vitimadas por isso, e também por muitos outros aspectos de sua longa subordi-
nação aos homens, é um erro básico tentar conceituar as mulheres essencialmente como vítimas. Fazê-lo de maneira
instantânea esconde o que deve ser admitido como fato da
situação histórica feminina: as mulheres são essenciais e
peças centrais para criar a sociedade (Lerner, 2019, p. 29).

Esse destaque chama atenção para os papéis sociais, consciente
e/ou inconscientemente, desempenhados por homens e mulhe-
res na manutenção do sistema. Nesse sentido, Maria Filomena Gregori (1992) argumenta que a condição de opressão das mu-lheres não será modificada se continuarmos atuando apenas
no campo da consciência. Ela acrescenta que a identidade das

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mulheres é construída por inesgotáveis processos de espelha-
mentos e contrastes. Nesse sentido, “a identidade se perfaz na trajetória, nas relações” (Gregori, 1992, p. 200) e por isso não há uma categoria total que trace um perfil identitário. Sendo, por isso, um equívoco essencializar e generalizar as experiências a partir da opressão das mulheres (Gregori, 1992). A autora ain-da aponta que as análises devem considerar o ângulo dos ho-mens, compreendendo que o masculino não é algo dado, mas
uma identidade (identidades também) produzida nas vivências sociais (Gregori, 1992).
A discussão de Bourdieu mais uma vez contribui para o debate. Segundo Jardim, para o autor, “a dominação masculina incrusta-da nas práticas, nas estruturas e nos discursos sociais, legitima
a existência de um amor desequilibrado entre homens e mulhe-res” (Jardim, 2019, p. 57). Isso nos leva à reflexão de que apesar da atuação de homens e mulheres, seria errôneo dizer que am-bos participam de maneira igual.

Do exposto decorre que se considera errôneo não enxergar
no patriarcado uma relação, na qual, obviamente, atuam as
duas partes. Tampouco se considera correta a interpretação de que sob a ordem patriarcal de gênero as mulheres não detêm nenhum poder. Com efeito, a cumplicidade exige con-
sentimento e este só pode ocorrer numa relação par, nunca díspar, como é o caso da relação de gênero sob o regime pa-triarcal (Saffioti, 2004, p. 118).

A sexualidade das mulheres foi a instância inicial de controle do patriarcado. Nesse cenário, o primeiro papel de gênero de-
sempenhado pelas mulheres foi o de instrumento de troca nas
transações de casamento, já o dos homens foi o de executor da troca e/ou definidor das regras do câmbio. Lerner (2019) sa-lienta que a família patriarcal se destaca pela resiliência que a
torna presente, de maneira variada, em épocas e locais distintos.
No entendimento da autora, é em seu seio que se reproduz e se

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constitui o Estado. “A família não apenas espelha a ordem do Es-tado e educa os filhos para que o sigam, mas também cria e sem-
pre reforça essa ordem” (Lerner, 2019, p. 266). Assim, quando refletimos melhorias atinentes às mulheres, estamos, no mais das vezes, observando vantagens relativas e não alteração de-finitiva do modus operandi da ordem patriarcal (Lerner, 2019). Compreendo que a noção de cuidado aperfeiçoada ao longo da
história constitui a base da dominação masculina. Assim, vemos, mesmo com o reconhecimento profissional, desenvolvimento de contraceptivos, participação política, entre outras coisas, a con-tínua subjugação das mulheres no âmbito das relações amoro-
sas e familiares.

Lerner (2019) vê no conceito de paternalismo uma das vias para
o entendimento da subordinação das mulheres. Em sua escrita, a autora fala que os recursos econômicos são artefatos permuta-
dos na relação paternalista. Contudo, conforme temos visto, essa
se constitui enquanto realidade cada vez mais distante, tendo
em vista que as mulheres ocupam cada vez mais o mercado de trabalho e que ser provedora de recursos econômicos sempre
moldou a vivência de parcela expressiva das mulheres não per-tencentes aos grupos privilegiados.
Chamo atenção, entretanto, para a crença da proteção masculina que encobre a fragilidade do homem expressa na necessidade
de cuidado permanente. Quero dizer, com isso, que dentro do jogo social operado, a mulher é apresentada como sujeita a ser protegida, sendo isso algo por ela introjetado, e o homem como o responsável pela salvaguarda. Sem embargo, como essa não é
a cena imperante, as relações amorosas se delineiam pela inces-
sante busca de representação real dos papéis socialmente atri-buídos. Sendo assim, as mulheres se tornam responsáveis em “cuidar” para que os homens finalmente consigam protegê-las,
insistindo em relações abusivas por acreditarem que falharam (e no poder de correção) no dever do cuidado. A regra domi-
nante é “homem como ser completo e poderoso, a mulher como

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inacabada, mutilada e sem autonomia” (Lerner, 2019, p. 270). E todos, inconscientemente, envolvem-se em tentar segui-la. Segundo Saffioti (2004), há na vivência do poder duas faces pos-síveis, a da potência e a da impotência. Ao longo do processo de
socialização, as mulheres são familiarizadas com a impotência,
enquanto os homens, contrariamente, são socializados para a
potência. Nas palavras de Michèle Riot-Sarcey, “do poder como potência, as mulheres são excluídas pelo princípio de sujeição que as liga aos seus maridos” (Riot-Sarcey, 2009, p. 184). A ques-
tão é que os homens não são preparados para as situações de
impotência. Em vista disso, “acredita-se ser no momento da vi-
vência da impotência que os homens praticam atos violentos, estabelecendo relações deste tipo” (Saffioti, 2004, p. 84). Sen-do, igualmente em decorrência desses papéis, que a ruptura da
relação por parte da mulher representa uma afronta ao ideá-rio masculino de poder e virilidade. No que tange às mulheres,
aprendem que a sua verdadeira força reside no cuidar do outro, marido, filhos, pai e mãe. Nesse sentido, “julgam-se capazes de mudar o companheiro, quando, a rigor, ninguém muda outrem” (Saffioti, 2004, p. 66). As normas desenvolvidas pelo ideário cristão-patriarcal trabalham com a noção contínua de culpa. A
culpa recai de modo mais sistemático sobre as mulheres, o que facilita o processo de controle de seus corpos e de fidelização ao
esposo. Busquei, ao longo desta sucinta sistematização teórica, refletir
diferentes perspectivas que se debruçam sobre o tema do amor,
procurando compreender como tais ideias estão diretamente
relacionadas com os dispositivos acerca da sexualidade e da con-jugalidade que resultam na idealização amorosa como sentido de vida (emocional, material, sexual, jurídico e transcendente). Com efeito, os modelos amorosos, vigentes em diferentes épocas foram/são erguidos sob o predomínio da dominação masculi-
na que contém, como mecanismo elementar de funcionamento,
a violência simbólica, representada pelos homens por meio da

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incumbência da virilidade e pelas mulheres por meio da repro-
dução dos papéis de cuidado. Esse quadro resulta na elaboração
e na manutenção de relacionamentos amorosos abusivos. Com base nessas reflexões, ilustraremos o amor abusivo por intermé-
dio da análise da obra Ponciá Vicêncio (Evaristo, 2017).

2. O amor romântico na obra Ponciá Vicêncio (Evaristo,
2017)

A história contada em Ponciá Vicêncio (Evaristo, 2017) não é
apresentada de modo linear e é exclusivamente feita em ter-
ceira pessoa, pela voz narrativa. A obra acompanha a trajetó-ria da protagonista, cujo título do livro traz seu nome, desde o
nascimento até a vida adulta. Esclarecemos que, mesmo com a importante presença de outros personagens vinculados ao seu percurso, devido ao espaço e à delimitação do presente artigo, nos concentraremos especificamente na história de Ponciá Vi-
cêncio3. Ponciá Vicêncio é uma mulher negra que carrega consigo uma herança deixada pelo avô paterno, o que poderá ser mais bem compreendido ao longo da apresentação. Os antepassados de
Ponciá foram escravizados, seus avós vivenciaram diretamente a escravidão oficial do Estado brasileiro. No entanto, mesmo após a abolição sua família continuou servindo aos antigos escraviza-dores, em condições análogas ao antigo regime.
O pai de Ponciá sempre estava a trabalhar nas terras dos bran-cos. Luandi, único irmão da protagonista, desde muito cedo o
acompanhou na lida. Nos tempos de chuva, os dois voltavam ain-
da menos para casa. Sendo assim, ela cresceu praticamente sozi-
nha com a mãe. Seu pai teve uma vida muito sofrida. Apesar de

3 Para ver uma análise mais aprofundada sobre o tema do amor em Ponciá Vicêncio (Eva-
risto, 2017), ver Matos (2021).

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ter nascido livre, foi durante a infância pajem do menino branco da casa grande. Depois de adulto continuou a trabalhar na terra
dos brancos, em uma intensa labuta. Foi justamente no labor da
lavoura, quando Ponciá era ainda menina, que faleceu.

Sua mãe, Maria Vicêncio, trabalhava o barro, fazia panelas, potes e bichinhos. A filha, desde pequena, buscava a argila nas mar-gens do rio e sabia trabalhar o barro até melhor que a mãe. Na
sua casa, de pau a pique e de chão de barro batido, praticamente
tudo era feito de barro.

Em sua infância, Ponciá Vicêncio acreditava que se passasse por baixo do arco-íris viraria homem. É importante que saiba-
mos que, naquela época, ela sorria e estimava ser mulher. Nas suas idas ao rio para pegar argila, ficava muito tempo ensaiando como passar pela cobra celeste sem ser percebida. Quando fi-nalmente tomava coragem, tampava o sexo com a saia e com um pulo chegava ao outro lado, certificando, em seguida, se conse-guira enganar o arco-íris. Foi em um desses episódios, em torno
dos seus 11 anos, que experimentou pela primeira vez o prazer
sexual. Após o salto, amedrontada, deitou-se para ver se o cor-po continuava igual. “Quando tocou lá entre as pernas, sentiu um ligeiro arrepio. Tocou de novo; embora sentisse medo estava bom. Tocou mais e mais lá dentro e o prazer chegou apesar do
espanto e do receio” (Evaristo, 2017, p. 22). Muitos anos depois,
ela reviveria, pela memória, esse dia. A ligação e a semelhança de Ponciá com o avô paterno é algo muito forte dentro da narrativa, sendo isso destacado ao longo de todo o livro. Quando Vô Vicêncio morreu ela ainda era bebê de colo. Nada obstante, um dia, enigmaticamente, fez um boneco de barro de um homem miudinho e curvado, idêntico ao avô. Ou-
tro acontecimento que chamou atenção de todos foi que a meni-
na ainda não caminhava, mas de repente desceu do colo da mãe
e começou a andar com o braço para trás, da mesma maneira que o avô. Ela ouviu, algumas vezes, que trazia a herança do vô,

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mas isso era mencionado de maneira tão baixa que ela não tinha coragem de perguntar do que se tratava. O avô de Ponciá foi escravizado. Ele não tinha uma das mãos e
vivia escondendo o braço mutilado. Enquanto o cultivo do ca-navial dava prosperidade aos escravizadores, “Sangue e garapa podiam ser um líquido só. Vô Vicêncio com a mulher, os filhos
viviam anos e anos nessa lida. Três ou quatro dos seus, nascidos
do “Ventre Livre”, entretanto, como muitos outros, tinham sido
vendidos” (Evaristo, 2017, p. 44). Em certa noite, ele foi tomado pelo desespero. “Vô Vicêncio queria
morte. Se não podia viver, era melhor morrer de vez” (Evaristo,
2017, p. 62). Com uma foice, matou a esposa e tentou tirar a vida do filho pequeno, que conseguiu fugir, e a sua própria; mutilou a mão e pretendia continuar se autoflagelando, porém foi impedido de prosseguir. Então, enlouqueceu e passou a chorar e rir.Cabe, de passagem, pontuarmos algumas reflexões. Defende bell hooks (2010) que, inevitavelmente, a escravidão criou dificul-dades concernentes à prática de amar naqueles que foram infli-gidos por esse sistema e/ou que herdaram suas consequências. Para ela, as dificuldades para amar em um contexto em que os filhos eram vendidos e os/as companheiros/as sofriam violên-
cias de toda ordem não representam nenhuma surpresa. Aliás, praticar o amor poderia causar sofrimentos insuportáveis: “Um
escravo que não fosse capaz de reprimir ou conter suas emo-ções, talvez não conseguisse sobreviver” (hooks, p. 3) Arrisco di-zer que isso, de algum modo, ocorreu a Vô Vicêncio. Conquanto,
devemos também atentar que esses fatores se unem à natura-
lização da violência contra as mulheres presente de diferentes
formas nas diversas culturas existentes e acentuada no contexto da colonização (Cabnal, 2010; Segato, 2014). Segundo Del Priore, “Há poucas referências de cronistas estran-geiros aos casamentos entre escravos. Sabe-se hoje que eles

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eram correntes” (Del Priore, 2019, p. 181). O olhar eurocêntrico
e racista impedia que os observadores vessem a existência de constituições familiares, formatadas pelas culturas originárias africanas e pelos arranjos possíveis dentro do sistema escravo-
crata (Slenes, 2011).

Slenes debate que para os escravizadores, o casamento dos es-cravizados se estabelecia como uma maneira de evitar fugas e
controle das relações, já que muitas vezes incentivavam o es-
tabelecimento da união formal, mas reservavam a si “o direito ‘paternalista’ de sugerir, persuadir, pressionar e, finalmente,
aprovar ou vetar os nomes escolhidos” (Slenes, 2011, p. 102).
Valendo dizer que havia excedentes do número de homens em
detrimento da quantidade de mulheres, tanto pelas compras como pela mortalidade. Sem embargo, o autor destaca que se engana quem julga que as constituições conjugais serviam ape-nas como estratégias de controle por parte dos escravizadores. Pelo contrário, “Provavelmente alguma das vantagens do casa-
mento para os escravos - e não as menos importantes - teriam sido as de ordem emocional e psicológica: o consolo de uma mão amiga, por exemplo, para enfrentar privações e punições” (Sle-
nes, 2011, p. 157). Tal consolo só existe em decorrência da vida
social e cultural prévia.

Além do amparo possibilitado pela relação afetiva/amorosa, o casamento permitia, na maioria das situações, um ganho maior de espaço, a continuidade de uma linhagem que não diz respeito apenas aos filhos da união, mas remete à ancestralidade presen-te já em suas regiões originárias. Conforme o caso discutido, os filhos de Vô Vicêncio e sua esposa foram vendidos, mesmo nas-
cidos sob o suposto amparo da Lei do Ventre Livre. A constitui-ção da família no regime escravista não contava com nenhuma segurança. As uniões conjugais/afetivas desenvolvidas em todos os perío-
dos históricos e em diferentes culturas representam formas de

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relações sociais que envolvem algum tipo de aliança, mesmo nas sociedades dominadas pela ideologia do individualismo. A dis-
cussão travada por Lobato (1997) nos mostra que a forma como amamos está intrinsecamente ligada com as condições presen-
tes nas sociedades em que vivemos. O contexto social que mar-
ca esse primeiro momento da narrativa literária analisada traz elementos de sociedades caracterizadas por uma organização holística, pensando nas referências culturais primárias trazidas
de África, mas também apresenta a incorporação de recursos do amor domesticado, peculiar das sociedades marcadas pela égide
do individualismo e representados pelo amor romântico, con-
forme poderemos ver mais adiante.

Aos 19 anos, Ponciá Vicêncio resolveu ir morar na cidade. Sua
partida foi tão repentina que até esqueceu de levar o boneco de barro do Vô Vicêncio, assim como não teve tempo para se despe-dir do irmão. Viajou no dia seguinte à decisão. O trem tardaria a
voltar ao povoado, então não poderia perder a oportunidade. O percurso durou três dias. Levou consigo apenas uma trouxinha.
Na cidade, o trabalho doméstico foi sua principal ocupação pro-fissional.Ela sempre escrevia cartas para a sua família, mas além dos car-teiros não passarem pelas terras dos negros, Maria Vicêncio e
Luandi não sabiam ler. Desse modo, ela desconhecia se as men-sagens chegavam até os destinatários. Ponciá foi a primeira da sua família a aprender a ler e a escrever. A moça igualmente ia
muito à estação em busca de um rosto conhecido que pudesse trazer alguma notícia. Foi em uma dessas idas que soube que seu irmão também havia migrado para a cidade e que sua mãe, não querendo ficar só, saiu em andanças na busca não se sabe o quê. A filha sentiu remorso, não era isso que tinha planejado. Após muitos anos de trabalho, conseguiu comprar um quartinho
na periferia e voltou ao povoado para buscar os seus. Mas não encontrou a mãe e o irmão. A viagem de volta pareceu mais lon-

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ga do que a primeira vez que partiu. Levou consigo o seu homem
barro. A saudade começava a tomar conta de Ponciá. Já na época do retorno ao povoado, ela estava enamorada de um
homem que morava na cidade e viria a ser seu marido. O moço
trabalhava na construção civil ao lado da casa de sua patroa. O sentimento era recíproco.

Ele também estava enamorado e observa que ela era uma
moça muito ativa. Estava sempre a lidar. Era bonita. Tinha
um jeito estranho que ele não sabia bem o que era. Gostava
de cantar. Tinha uma voz de ninar criança e deixar homem feliz. [...] Ele gostava da tenacidade dela, do seu olhar adiante.
Era uma mulher sozinha e muito mais forte do que ele. Era de
uma pessoa assim que precisava [...] (Evaristo, 2017, p. 56).

O homem sabia que às vezes parecia que o espírito dela fugia, porém não questionava, tinha medo. Essa afirmação mostra que, embora tenha sido atraído pelas habilidades de Ponciá, ele co-nhecia que em alguns momentos ela se tornava alheia ao agora. Depois que voltou do povoado, a moça ficou ainda mais estranha.
O casamento dos pais de Ponciá foi muito distinto do seu. Seu pai ficava mais na terra dos brancos, sua mãe nunca reclamou
da ausência do marido. Vivia a cantar e a trabalhar o barro. E
quando ele estava de volta, era Maria Vicêncio que decidia o que
seria feito naqueles dias e quando ele partisse. “O pai era forte, o
irmão quase um homem, a mãe mandava e eles obedeciam. Era tão bom ser mulher! Um dia também ela teria um homem que, mesmo brigando, haveria de fazer tudo que ela quisesse e teria filhos também” (Evaristo, 2017, p. 25). Tal passagem reflete as
expectativas amorosas de Ponciá, evidenciando que, mesmo em um contexto em que o amor romântico não possuía total cen-tralidade, o sucesso conjugal compunha as condições para a sua
realização individual. Além disso, a relação de seus pais não se-guiu o caminho do abuso. Entre outras coisas, podemos destacar

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que Maria Vicêncio não possuía a incumbência dos cuidados ex-
clusivos do marido. Lembrando que o cuidado é aqui entendido
conforme a literatura que trata dos efeitos do patriarcado. Essas
ponderações chamam atenção para o caráter social que norteia
a prática de amar e para as possibilidades de desconstrução dos
formatos condizentes com o abuso.

Os acontecimentos da vida de Ponciá caminharam no sentido contrário aos seus desejos de menina. Ela teve sete filhos, mas todos morreram logo após o nascimento, alguns chegaram a
viver um dia. Pariu os cinco primeiros em casa com a parteira
Maria da Luz, que junto a ela chorava a morte dos bebês. Os dois
últimos nasceram no hospital, onde lhe disseram que os óbitos eram decorrência de problemas no sangue.

O homem de Ponciá Vicêncio se mostrava também acabru-nhado com a perda dos meninos. A cada gravidez sem su-cesso. Ele bebia por longo tempo e evitava contato com ela. Depois voltava dizendo que ia fazer outro filho e que aquele
haveria de nascer, crescer e virar homem. Ponciá já andava
meio desolada. Abria as pernas, abdicando do prazer e de-sesperançosa de ver se salvar o filho (Evaristo, 2017, p. 46).

Ponciá sofreu muito quando os seus primeiros filhos morreram. Todavia, na sequência, chegou a desejar que os demais não so-
brevivessem. Questionando, isso sim, o porquê de colocar mais
uma pessoa no mundo para sofrer. “Lembrava da sua infância
pobre, muito pobre na roça e temia a repetição de uma mesma vida para os seus filhos” (Evaristo, 2017, p. 70). Todos os seus trabalharam/trabalham tanto nas terras dos brancos. Os negros eram senhores do sofrimento e da revolta suicida. Alguns migra-
vam para a cidade com esperanças de uma vida melhor, mas o
cenário de exploração continuava. Podemos refletir sobre o cenário urbano que compõe a segunda
morada de Ponciá. Não conhecemos ao certo os anos e o local

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de passagem da obra. Sabemos, contudo, que a narrativa traz
acontecimentos desenrolados ainda no Brasil Império e que a protagonista nasce pouquíssimas décadas após a abolição da es-
cravatura. Esse momento tem como uma de suas marcas o proje-
to de modernização da sociedade brasileira. Há, nesse sentido, a
expansão do meio urbano e o desenvolvimento da industrializa-ção. Chamo atenção que esse último não tem lugar na obra. Isso se explica pelo lugar que a população negra ocupou no processo de modernização do país. Assim, todos os personagens princi-pais migraram da região rural para a cidade e continuaram tra-balhando nos ofícios manuais, ou nas chamadas atividades re-
produtivas.

Muito temos falado sobre a conquista representada pela entrada
das mulheres no mercado de trabalho e como esse feito repre-
senta uma realidade parcial, haja vista que as mulheres pobres, negras e indígenas sempre estiveram incumbidas do trabalho
extralar. Devemos, porém, lembrar que a admissão ao trabalho conquistada por grupos específicos de mulheres trata de seto-
res que envolvem também as atividades produtivas e de servi-
ços, como atendimento ao público. Desse quadro, as mulheres (e homens) que sempre trabalharam permaneceram excluídas. O caso de Ponciá é bastante figurativo da discussão. Ela detém
o conhecimento da leitura em um momento que a maior parte da população era iletrada, ainda assim não conseguiu trabalho em categoria distinta das atividades relacionadas aos ofícios da
população escravizada.

Luandi, irmão de Ponciá, e Biliza, mulher pelo qual ele se apai-xona, são personagens também a serem destacados. Luandi che-gou na cidade igualmente sem destino. Conseguiu um emprego como zelador na delegacia e foi Soldado Nestor, homem também negro e do interior, que o auxiliou nesse processo. Luandi sonha-
va em um dia se tornar policial e para isso Soldado Nestor come-
çou a alfabetizá-lo. O irmão de Ponciá se apaixonou por Biliza,
mulher que após muitos anos no trabalho doméstico teve suas

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economias roubadas pelo filho da patroa e acabou na prostitui-
ção. Luandi não se importava com isso. Após ele virar soldado,
os dois se casariam, ela até já havia começado a fazer o enxo-val. Porém, Biliza foi assassinada por Nego Climério, homem
que trabalhava na “proteção” das prostitutas do casarão. Esse
episódio deixou a vida de Luandi profundamente entristecida. Na sequência de sua vida, ele conseguirá ser soldado, mas isso perderá o sentido quando finalmente compreender que aquele
poder de mando não valerá de nada, haja vista que continuará a
obedecer aos brancos e a oprimir os seus. Outro aspecto é que apesar de grande parte da trama se pas-
sar no meio urbano e não mais em comunidades locais mais ou
menos restritas, os envolvidos na narrativa acabam enamorados por pessoas dos grupos sociais de origem. Ou seja, negros, po-bres e praticantes do êxodo rural. Esse retrato reflete fronteiras de classe, raça e regionalidade rígidas, dialogando com o que Costa (1998) fala acerca do mito moderno da livre escolha amo-rosa. Não negamos que exista alguma margem para eleição do
par, nada obstante devemos pontuar a existência de limitações
previamente estabelecidas pelas condições de classe e pelos dis-
tintos marcadores sociais que são in/corporados pelos sujeitos.

Nas primeiras vezes que Ponciá sentiu o vazio na cabeça, voltou atordoada. Porém, depois, no agora do presente, gostava de se
desconhecer e se tornar alheia ao seu próprio eu. O fato de Ponciá viver a recordar e a se ausentar de si causava incômodo em seu marido, que reagia por meio da agressão verbal e física. Em deter-
minado dia, por exemplo, ela foi interrompida de suas lembranças pelo soco do homem. Ponciá se pôs a observá-lo sentado na cama imunda, sentindo ainda mais desgosto por sua vida. O que estava
fazendo com aquele homem? Nem prazer os dois sentiam mais. Quando ele chegava e a via parada perto da janela, na mesma po-sição de antes dele sair para trabalhar, ficava nervoso e reclamava
da lerdeza de Ponciá. Ela, mesmo com raiva e sentindo arder o
corpo pelas pancadas recebidas, ia preparar a janta do marido.

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Seu homem falava que ela era pancada das ideias. Talvez estives-se certo, refletia ela.
Às vezes, ela percebia nele um vislumbre de tristeza. Tinha
vontade então de abrir o peito, de soltar a fala, mas o homem
era tão bruto, tão calado. Nem quando ela o conheceu, nem quando ela e ele sorriam e se amavam ainda, Ponciá conseguiu abrir para ele algo além de seu corpo-pernas. Às vezes tentava,
mas ele sempre calado, silencioso, morno. Muitas vezes nem o
prazer era repartido (Evaristo, 2017, p. 39).

Na insatisfação do sexo, ela relembrava com os pensamentos e com as mãos o prazer que sentiu embaixo do arco-íris. A protagonista era acostumada ao silêncio dos homens. Seu pai
e irmão falavam pouco. Quanto ao marido, “Ele também só fala-
va o necessário. Só que o necessário dele era bem pouco, bem
menos do que a precisão dela” (Evaristo, 2017, p. 57). Muitas
vezes desejou ouvir como tinha sido o dia do homem e falar so-bre os enjoos e desejos da gravidez, relatar seus medos e ouvir
os dele. No entanto, ele era praticamente mudo, não costumava
demonstrar sentimentos, não sorria ou chorava. “Enquanto que
nela havia a ânsia do prazer, como havia! Porém o que mais ha-
via, era o desesperado desejo de encontro. E então, um misto de
raiva e desaponto tomava conta dela, ao perceber que ela e ele
nunca iam além do corpo, que não se tocavam para além da pele” (Evaristo, 2017, p. 58).
As citações acima elencadas evidenciam que Ponciá amou o marido. Ela nem sempre esteve alheia, possuía sentimentos, so-nhos, desejos, ânsia de prazer, tristeza e raiva. Isso é algo muito
importante: ela sentia. Sentiu amor e buscou viver o amar. Na
medida que a realidade destroçava seus sonhos, ela ia se im-pregnando da saudade dos seus, mas também de si mesma, da
Ponciá do passado, daquela que era movida por sentimentos e
esperanças. No processo do seu adoecimento, ela passou a ser

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dominada pela tristeza, sentindo alegria somente na rememora-
ção de acontecimentos muito distantes. À medida que piorava,
distanciava-se de toda e qualquer forma de sensação do presente. Prestemos atenção na seguinte passagem: depois de mais uma
noite em claro, enquanto fazia o café ralo de todas as manhãs,
Ponciá recordou como a mãe arrumava com cuidado as coisas
do pai e do irmão. Assim, lembrou como já havia sonhado em ter seu homem e seus filhos. Entretanto, “Lá estava ela agora com seu homem, sem filhos e sem ter encontrado um modo de ser feliz.
Talvez o erro nem fosse dele, fosse dela, somente dela. Ele era as-
sim mesmo” (Evaristo, 2017, p. 47). Nos escapes dos constantes
estados de alheamento, Ponciá era sufocada pela tristeza do pre-sente, ela sofre e talvez ficar longe de si fosse o melhor. Fica ainda manifesto que, em alguma medida, ela tenta justificar o compor-tamento violento do homem sob a alegação da imutabilidade do
comportamento dele e de que os erros eram somente dela.

Nos últimos tempos, o marido andava muito irritado com Pon-
ciá, qualquer coisa era motivo para lhe encher de socos e ponta-pés, dando a repetir que ela estava ficando louca.

Mas de manhã, quando acordava e guardava a marmita, en-quanto bebia o gole ralo de café (mesmo se a latinha esti-
vesse quase cheia de pó, a bebida era sempre rala), ele era
calmo, quase doce. Ele sentia saudades da outra Ponciá Vi-cêncio, aquela que ele conhecera um dia. E se perguntava,
sem entender, o que estava acontecendo com a sua mulher. Ela que, antes, era feito uma formiga laboriosa resolvendo tudo. Ela que muitas vezes saía junto com ele na labuta diá-ria do fogão, da limpeza, das trouxas de roupa nas casas das
patroas. O que estava acontecendo com Ponciá Vicêncio?
(Evaristo, 2017, p. 47).

Ela o observava ir para a labuta e pensava que poderia tornar o lugar que viviam mais agradável. Às vezes refletia para quem a vida era mais difícil, homens ou mulheres? Concluía “que, pelo

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menos para os homens que ela conhecera, a vida era tão difícil quanto para a mulher” (Evaristo, 2017, p. 48). Tomaria coragem e seguiria outros rumos. Contudo, quando percebia, estava há tem-
pos parada no seu cantinho, olhando pela janela e recordando. É interessante percebermos que Ponciá sente-se identificada
com os sofrimentos dos homens de seu meio social. Isso porque estão todos abrigados em uma conjuntura social perversamente racista e desigual. Todavia, talvez Ponciá pensasse na realidade
de seu pai e irmão que demonstram comportamentos distintos dos demais homens da narrativa e, por isso, não enxergasse que nada justificaria, em hipótese alguma, os diversos atos
de violência do seu marido. Ele que era introspectivo, não
tinha dificuldades em demonstrar o furor contra ela. Ademais, presenciamos, ao longo da obra, dois casos de feminicídio, um cometido por Negro Climério e outro impetrado por Vô Vicêncio.
O ápice da violência, no relacionamento de Ponciá, ocorreu em um dia que seu marido chegou, como de costume, cansado do trabalho pesado. Ele estava estressado e desejoso de um gole de pinga4, porém não tinha uma moeda sequer. Quando mirou a
mulher ali parada, “Precisou fazê-la doer também e começou a agredi-la. Batia-lhe, chutava-lhe, puxava-lhe os cabelos. Ela não tinha um gesto de defesa” (Evaristo, 2017, p. 83). Ao ver o san-gue em seu rosto, pensou em matá-la, mas logo voltou a si. Ar-
rependido, carinhosamente limpou o rosto de Ponciá. O homem foi tomado por remorso, pois definitivamente entendeu que ela estava doente ou com algum encosto, e nunca mais a agrediu. A esposa, por seu turno, emudeceu. “Falava somente por gesto e pelo olhar. E cada vez mais se ausentava” (Evaristo, 2017, p. 83).
O marido passou a fazer o café e arrumar a própria marmita.
Ponciá comia apenas um pouquinho da comida que ele deixava e bebia bastante água, passando os dias na janela a recordar.
4 “Bebia, mas não muito. Tinha a natureza fraca, não era preciso muito para que ficasse
tonto” (Evaristo, 2017, p. 47).

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Certo dia, o homem a cutucou para oferecer café, ela, distante
como estava, ainda teve um leve tremor de medo e se curvou para receber as pancadas. Esse gesto o causou profundo arre-pendimento por tantas vezes tê-la agredido. No dia do último
ato de violência, viu tanto pavor e sofrimento no olhar da mu-lher que percebeu não só o desamparo dela, mas igualmente o
seu. “Descobriu que, apesar de já terem se encontrado tantas vezes no gostoso prazer do corpo, apesar de ela já ter guardado
tantas vezes o caldo quente dele e este caldo ter se transformado
sete vezes em vida, apesar de tudo, ela e ele eram desespera-
damente sozinhos” (Evaristo, 2017, p. 93). Ele aceitou que não
poderia alcançar e entender a vida de Ponciá. “E, quando, ainda, tinha ânsias de prazer sob o sexo erguido, afastava-se dela, pois
há muito a mulher havia se abdicado de tudo” (Evaristo, 2017, p. 93). Ela estava agora em um mundo somente dela. Na história apresentada, desde o início está claro que Ponciá
Vicêncio tornava-se alheia ao presente. Ela vivia a recordar dos
momentos ruins e bons, da sua vida e da do seu povo, por isso,
chorava e sorria. Contudo, a relação amorosa vivida com seu
homem contribuiu para o aprofundamento da sua tristeza.
Grande parte da vida de Ponciá Vicêncio foi passada ao lado do
marido. Ainda assim, ela estava só. Até mesmo seu prazer era
muitas vezes alcançado por suas próprias mãos. Pelo que a voz
narrativa nos conta, ele também vivenciava a solidão. Podemos perceber uma queixa em comum, o desencontro do espírito. Ambos refletem que nunca se conheceram para além do corpo.
Houve, sim, a satisfação dos encontros sexuais, mas essa é uma
realidade parcial para ela. O episódio da masturbação embaixo do arco-íris em diversas passagens é relembrado pela prota-gonista. Seja porque a estimula na busca do gozo, seja porque a
faz recordar de um tempo em que o seu corpo não representava
tanta dor. Consoante ao que já discutimos, a característica inicial mais
apreciada pelo marido, em Ponciá, foi justamente sua capacidade

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de ação, seus sonhos e metas. Acontece que o estado de ausência da mulher não foi uma descoberta da vida conjugal. Totalmente
novo, isso sim, foi a falta das atividades, desempenhadas por ela,
tanto para o cuidado do marido quanto as efetuadas no âmbi-to do trabalho pago e que igualmente garantiam a manutenção material da casa. Lembremos que as mulheres pobres e negras
sempre estiveram incumbidas do trabalho extralar. De acordo com Beatriz Nascimento, “Quanto ao homem negro, geralmen-te despreparado profissionalmente por força de contingências históricas e raciais tem na mulher negra economicamente ati-
va um meio de sobrevivência, já que à mulher se impõe, como sabemos, dupla jornada” (Nascimento, 2006, p. 128). Aqui jaz uma das indignações do marido de Ponciá. Ela não conseguia cumprir suas funções de cuidado, a casa era bagunçada, ela es-quecia de fazer a comida do homem, seus filhos morreram, além dela não ir para a lida junto com ele. Tudo isso gerava um misto de raiva no homem, que trazia consigo a revolta da pobreza, do
racismo e da exploração do trabalho por ele vivenciada. Nesse
sentido, Ponciá Vicêncio era o receptáculo no qual ele deposita-
va sua frustração, com o mundo explicitamente público e com o
privado, representado pela esposa desleixada e doente que não conseguia ter filhos. A obrigação da mulher cuidar dos membros da família é uma característica elementar do sistema de controle presente no
patriarcado. Compreendo, assim, que as ideias sobre o amar (a vivência do amor), constituídas sob a égide da dominação masculina, são carregadas desse imperativo. A falha no desem-
penho dos papéis, representado pela mulher que cuida e pelo homem que é cuidado, justifica a manutenção de relaciona-
mentos abusivos. Ponciá continuou na relação por não ter as
condições materiais para partir, mas também porque culpava
a si mesma por não cumprir o que seriam os seus deveres. O
homem continua porque esperava reaver a condição de cuida-do da mulher. Até que a herança de Vô Vicêncio se cumpriu e ela
reencontrou os seus.

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A herança deixada por Vô Vicêncio revelava/revela “uma his-
tória tão sofrida, porque enquanto os sofrimentos estivessem
vivos na memória de todos, quem sabe não procurariam, nem
que fosse pela força do desejo, a criação de um outro destino” (Evaristo, 2017, p. 109). E, assim, “Lá fora, no céu cor de íris, um enorme angorô multicolorido se diluía lentamente, enquan-
to Ponciá Vicêncio, elo e herança de uma memória reencontra-da pelos seus, não haveria de se perder jamais, se guardaria nas águas do rio” (Evaristo, 2017, p. 111).
Considerações finais

O amor é um tema recorrente em nossas relações sociais, sendo
evocado nos variados campos da expressão humana. De maneira
mais ampla, os ideários amorosos se relacionam com os mode-los dominantes de organização social.
A apresentação da narrativa sobre Ponciá Vicêncio nos faz re-tornar às reflexões de Jardim (2020) acerca dos postulados de Bourdieu. O corpo carrega uma memória que é individual, mas também é coletiva. Ponciá Vicêncio traz consigo a herança de seus ancestrais, esse legado representa sabedoria, mas também
expressa muita dor e sofrimento.

Distintamente do que é colocado por Bauman (2004) não veri-ficamos a existência de um amor efêmero, líquido, sem compro-
missos e voltado para a substituição. Tampouco nos deparamos com indícios do amor confluente proposto por Giddens (1993).
Indubitavelmente os autores estão discutindo um momento so-
cial que não é exatamente aquele apresentado na obra. Entre-tanto, mais do que isso, a realidade de diferentes grupos sociais
é tratada de modo desconexo da sua concretude social.Ponciá Vicêncio carregava a dor da mãe que sete vezes pariu e viu seus sete filhos morrerem. No final, ela gostaria que os be-

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bês não sobrevivessem. Ainda assim, ficava novamente grávida seguindo uma imposição, mais ou menos velada, de seu homem. Ele, que também ficava triste e se afastava durante o luto, retor-nava resoluto de que conseguiriam gerar. Enquanto a Ponciá, até
mesmo nesse momento de tamanha dor, estava solitária. Con-
forme é expresso na obra, eles não se conectavam para além do corpo. Ponciá estava longe da sua terra, dos seus familiares e aos
poucos foi se tornando alheia a si mesma. Nesse cenário, não
havia condições materiais para que buscasse ajuda, nem mesmo
uma rede de apoio a que pudesse recorrer.

O relacionamento de Ponciá Vicêncio é marcado pela violência. Isso significa que a sua vivência do amar traz o abuso como ele-
mento constituinte e constituidor do relacionamento. Seu mari-
do necessita do seu cuidado, revolta-se por isso não acontecer,
realiza ações condizentes com o comportamento viril (Bourdieu, 2011b) e na sequência, de alguma forma pede, a si e à mulher, compreensão pelo abuso instaurado. Seguidamente, no jogo in-
consciente para efetivação dos papéis, Ponciá entende que fa-
lhou e que deve continuar, pois pode fazer diferente para ele ser
diferente.

Pontuamos a necessidade de aprofundarmos as discussões a
respeito da temática do amor e da relação do amar com a manu-
tenção da violência contra as mulheres. Considerando, sempre, a amplitude do contexto e a especificidade dos atores que com-
põem as relações analisadas.

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