O insólito como aliado na prática etnográfica

Autores

DOI:

https://doi.org/10.21665/2318-3888.v13n26p251

Palavras-chave:

Alteridade. Desconhecido. Experiência. Sertão.

Resumo

O texto narra minha trajetória etnográfica junto a comunidades tradicionais da caatinga baiana, destacando experiências com dois curadores. Em 2015, durante uma imersão em campo, vivi um acontecimento marcante: a palavra enigmática disno, proferida por Gisélia e atribuída a espíritos aliados. Esse evento Instaurou uma abertura sensível e epistêmica ao “fora”, desestabilizando a razão científica e mobilizando outro modo de conhecer – experiencial, relacional e não representacional. A partir dessa vivência e de rituais como o passe, elaborei notas para uma teoria etnográfica da alteridade entre os rastejadores da caatinga, atentas às práticas xamânicas e aos modos nativos de existir. Em diálogo com autores aliados, reflito sobre o termo lapigado, proposto por Capuxo e seu espírito aliado, para descrever quem é sutil, afetuável e capaz de transitar entre mundos. Assim como disnolapigado Indica uma antropologia contaminada pela alteridade radical, por forças extra-humanas que exigem novas formas de pensar, sentir e descrever. Argumento que a antropologia deve superar tanto o silêncio quanto a sobreinterpretação da arrogância epistemológica moderna, acolhendo o Incômodo de conceitos e experiências nativas que não cabem em categorias prévias. Esse Insólito, quando levado a sério, produz efeitos ontológicos, revelando como a cosmopráxis caatingueira pode reconfigurar o próprio fazer antropológico e “ralentizar” a premissa sociológica de que já se sabe o que pensam os nativos. Por fim, afirmo que minha nomeação como lapigado não é metáfora, mas é a análise caatingueira sobre uma forma de existência e pensamento compartilhada, que só se processa na experiência viva e na afetação mútua.

Submissão: 28 jul. 2025 ⊶ Aceite: 20 out. 2025

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Biografia do Autor

Gabriel Rodrigues Lopes, Universidade Federal de Sergipe

É natural da caatinga da Bahia e realiza sua prática etnográfica junto a comunidades tradicionais de fundo de pasto desde 2015. Doutor em antropologia social pela Universidade de Buenos Aires (UBA), co-fundador e pesquisador do Núcleo de Etnografia Ameríndia (NuEtAm/UBA). Atualmente é Pesquisador “Conhecimento Brasil” do CNPq - Nível 1, junto ao PPGA/UFS, e coordenador do projeto de pesquisa, financiado pelo CNPq: “O que os 'sertanejos' propõem à etnologia indígena?”

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Publicado

26-11-2025

Como Citar

LOPES, Gabriel Rodrigues. O insólito como aliado na prática etnográfica. Ambivalências, São Cristóvão-SE, v. 13, n. 26, p. 251–271, 2025. DOI: 10.21665/2318-3888.v13n26p251. Disponível em: https://ufs.emnuvens.com.br/Ambivalencias/article/view/n26p251. Acesso em: 14 jan. 2026.

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Artigo