Chamada pública de artigos para o Dossiê “NOSSOS CORPOS DE TODOS OS DIAS (PARTE 02)”

14-07-2021

O que a arte e a cultura podem dizer a respeito do corpo? A mitologia judaico-cristã nos oferece um imaginário hilomórfico, inspirado pela filosofia aristotélica, do objeto vivo (ou autômato sentimental), segundo o qual o corpo de Adão figura inicialmente como massa amorfa, de barro bruto e passivo, moldada de cima para baixo pelas mãos de Deus e da qual surgiria Eva. Ambos avivados pelo sopro da vida - fazendo emergir a mágica faísca do agenciamento (ou alma) naquilo que, até então, era mero substrato inanimado. Sem a centelha da alma, afirmam, o corpo torna-se robótico, sinistro e habitado pelo nada. Contudo, como a antropologia vastamente nos mostra, outras tradições e cosmologias não entendem o corpo como um produto dividido em “carne” e “agência”, cuja formação seja bifásica (primeiro a forma e, depois, a matéria) e dicotômica (primeiro a imaterialidade e, depois, a materialização). Para os Koyukon, habitantes do Alasca, por exemplo, o “sopro da vida” não é uma contingência e nem uma dádiva reservada ao que a “ontologia naturalista” (Descola: 2005) entende por “vivente”, mas uma permanente matriz de movimento emergida e renovada pelos polirrítmicos movimentos de criaturas (humanas ou não) e intemperismos. Para os Koyukon, o mundo não tem “viventes”, ele é vivo; e toda “forma” não é senão a cristalização provisória da história de movimentos que lhe deu origem (Ingold: 2000).


Feito dos mesmos materiais do mundo, os corpos vivem e erodem com ele. A decadência do corpo – na retórica do envelhecimento – é uma lembrança da morte, que marca a fronteira com o desconhecido. Fugaz em sua durabilidade, cada corpo atesta uma raridade similar à obra de arte (atrelada ao seu vínculo com um inédito aqui e agora, que não volta). Com receio da velhice/morte, éramos (e somos) alimentados pela fantasia da Fonte da Juventude e o desejo da vida eterna. Contudo, também não faltam alarmes quanto às maldições e fardos implicados na imortalidade – Drácula e Dorian Gray bem o sabem! Embora não se possa impedir a ruína do corpo, são possíveis certas operações que ocasionam a ilusão de retardo dos processos de envelhecimento: as intervenções cirúrgicas contemporâneas e o conceito de pós-humano estão a serviço tanto da discriminação etária quanto da transformação corpórea (da cirurgia estética ao corpo trans). As cirurgias estéticas que objetivam esticar a rugosidade da velhice, tornam o corpo liso, apagado de memórias e pretensamente vedado ao tempo e seus atritos. Não por acaso, Byung-Chul Han (2019) entende que a topologia lisa, translúcida, refletora e de memória fraca, torna-se o ideal estético em uma sociedade guiada pelo frenético ritmo do desempenho, que não tem tempo para se demorar, refletir ou digerir o que quer que seja. Contudo, nem a mais perfeita e sofisticada operação pode mudar o fato de que não há corpo sem história. Todo corpo é densamente opaco e nenhum deles é isento de texturas, sombras, símbolos e próteses. Aliás, o acoplamento corpo-máquina é um tema bem expressivo nas artes, como em “Crash”, de J. G. Ballard, ou os corpos maquínicos de David Cronenberg, ou, ainda, na arte funerária no cadáver-manequim de Gunther von Hagens. As interfaces do corpo com o maquínico, similares às contaminações do sagrado e do profano, remetem às múltiplas dinâmicas em torno da “pureza”, da “abjeção”, da “moral”, figurações que podem ser entendidas como constantes antropológicas.


Ao nos laçarmos ao longo da aventura antropológica, investigando as condições e potenciais da vida humana, nós também nos lançamos na opacidade do mundo e inevitavelmente testemunhamos que “o corpo” é, na verdade, “um corpo”: cada qual um organismo múltiplo, um turbilhão (Bergson: 1934), um emaranhado de linhas (Deleuze; Guattari: 1980), um plissê fractal (Lévy: 2003), uma tapeçaria aberta cujos filamentos soltos se entrelaçam, se misturam com os ambientes, materiais e criaturas, na constante produção de seu habitar (Ingold: 2015). O domínio do fogo, que proporcionou aprimoramentos bélicos, também proporcionou a possibilidade de cozer alimentos e facilitar o processo digestivo, permitindo uma entrega ao son(h)o profundo. (Morin: 1973). Tanto sapiens sapiens quanto sapiens demens, somos embebidos com os sonhos, mitos e deuses que nós mesmos despejamos ao redor. Como nos lembra Bateson (1972), a mente não é algo trancado no crânio; ela vaza e se mistura com o mundo (que, também vaza e se mistura no corpo). O terreno no qual as Ciências Sociais se nutrem é constituído justamente pela densidade das histórias, em constante processo generativo, que vazam em (e por) cada ser e lugar.


Um contexto de epidemia/pandemia – como a de covid-19 (2020-2021) – pode convocar outras experiências para o corpo, como a da suspeição de contágio, o medo do contato, a virtualização da presença a partir de webcams, videoconferência e similares. Pensando na miríade de trilhas pelas quais o organismo passa, este dossiê está interessado em debater imbricações entre arte, cultura e humanidades em enquadramentos epistêmicos variados acerca do corpo.

 

Organizadores:

João Dantas dos Anjos Neto - Universidade Federal de Goiás. 

Márcio Markendorf - Universidade Federal de Santa Catarina

 

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Data limite para submissão: 15/10/2021